Cena 1
Anos 50.
Algum lugar do Brasil.
- Seu filho fez mal a minha filha.
O homem olha pra moça, cabisbaixa, e pergunta:
- Ele fez isto a você?
Ela diz:
- Sim.
O homem olha para o rapaz e diz: então ele vai casar.
Anos 60
Em algum lugar do Brasil.
"Uma negra e uma criança nos braços, solitária na floresta de concreto e aço."
O homem, branco, desapareceu no mapa. Está por aí, se pá até já morreu. Sozinha ela criou um poeta.
Anos 90
Em qualquer lugar do Brasil.
Na sala, mãe e filha aguardam o pai chegar. Ele sempre se atrasa. Muitos compromissos e não abre mão de passar na academia. Ele entra. Senta.
- Marcelo, você precisa falar com seu amigo o Dr. André.
- André? por quê?
- Porque temos um assunto a resolver.
Ele, com cara de interrogação, não entende absolutamente nada. A filha tem 19 anos, 2o ano de comunicação social numa excelente universidade privada. Ele tem trabalhado 12h por dia para garantir que ela faça um intercâmbio em L.A.
- Marcelo, vc não entende nada! vc nunca participa de nada! sempre está atrasado! sempre preocupado com você e me deixa aqui sozinha pra resolver tudo.
Ele continua sem entender nada.
- Eu já falei com a Selminha. A filha dela também precisou de um e custou 2 mil caracóis de vênus. Converse com teu amigo e veja se consegue um preço melhor do que este. Temos 2 semanas pra resolver isto.
2000
Ela sai do trabalho, apreensiva. Está sozinha.
Já fez este percurso inúmeras vezes. Passou pelo prédio outras tantas. Logo ali na esquina tem uma praça de alimentação.
Entra no elevador. Está vazio. É fim de expediente.
Ela entra no consultório. Dr. Francisco abre a porta. Calvo, baixo, avental na altura dos joelhos. Ele fecha a porta.
Ela sai de lá com um papel na mão.
A quem ela vai pedir emprestada esta grana?
Não pode dizer aos pais - eles nem moram na cidade!
Se pedir esta grana pra tia, com certeza ela vai dizer pra mãe e o escarcéu estará armado.
Morando sozinha, pagando aluguel, fazendo pós-graduação, não sobra muito para poupar e ninguém guarda dinheiro pensando que um dia precisará dele para esta situação.
19h25. Vai chegar atrasada na aula de metodologia.
2010
O namorado da professora era um sedutor crônico. Sempre aparecia na universidade pra buscá-la, ao final de uma aula e, assim, aproveitava e conhecia as novas alunas. Pelo teor da carreira, a maioria são mulheres. Um prato cheio para os olhos e a boa conversa do rapaz.
Trazia encanto. Voz grave, palavras doces, culto.
Muita gente sabia que ele dava estas escapadas mesmo namorando uma mulher estonteante.
As jovens olhavam, admiravam, cobiçavam.
Alguns jovens também.
Ele percebia os olhares - excelente visão periférica - memorizava rostos.
Um café aqui, um livro emprestado lá, um dvd que ele trazia pra enriquecer no TCC desta ou daquela jovem jovem.
Nada aconteceu... até o carnaval.
O bloco passou, a noite estava linda, se encontraram em meio à folia. Ela fantasiada de Mulher Maravilha, ele um pirata.
Em abril, ela procura pela amiga militante.
- Onde fica aquele grupo de apoio à mulher?
Estava sozinha. Já tinha um filho, 4 anos. Menino lindo, encantador, forte. Não tinha como criar outro, não agora. Ela queria a casa cheia de crianças mas queria um marido. O primeiro casamento terminara há 14 meses. Tudo era novo e desafiador.
O sexo foi com camisinha mas ela devia estar furada, tanto tempo jogada no fundo da bolsa.
O pirata não acreditou que fosse dele. Poderia ser qualquer um. Ele usou camisinha! Definitivamente não era dele.
Ela estava há 8m sem relações. Só esteve com ele. Sabia que era dele.
Agora tinha que resolver o assunto. Sozinha.
Cenários são vários.
Os relatos criados livremente baseados em filmes, livros, música.
Todas estas mulheres, classe média, estão sujeitas a interrupção da gestação. Em todas estas histórias a mulher protagonizou a solidão, a vergonha, a busca por apoio.
Para se fazer gente é preciso duas metades.
Em todas as histórias o homem é coadjuvante ou sujeito inexistente no encaminhamento da questão.
Em todas as histórias, a mulher correu risco de vida.
Em todas as histórias, a mulher correu o risco de ser denunciada e ir para a prisão.
Se é pra mandar pra prisão, sonho com uma história assim:
Ela, altiva, diante do juiz, ouve a advogada dizer:
- Aqui estão os exames que comprovam que Tiago Augusto era o pai da criança.
O advogado de Tiago Augusto, irado, contesta:
- Ela era a mãe! ela tinha o dever sagrado de zelar pela vida de um inocente! Vilã, cruel! punição máxima para esta senhora!
- A questão é que o cliente do meu colega advogado tem condição financeira e de saúde que permitiria a ele ser apoio a esta mulher na decisão de levar a gestação adiante porém, ele insistiu que a interrupção fosse feita. Ofereceu pagar.
O advogado argumenta:
- Por que ele não tinha certeza se a criança era dele. Poderia ser de qualquer um!
- Mas ela, sabiamente, colheu uma mostra de DNA e mandou pro laboratório. Fez todos os exames antes de interromper a gestação. Senhor juiz, se o senhor vai aplicar a pena máxima a minha cliente, que ela se estenda a este cidadão.
Eu tenho ficado chocada com algumas coisas que leio aqui.
Sei que vivemos um tempo em que as pessoas pouco leem ou o fazem com tanta pressa que não percebem o que está em jogo. Quero acreditar que muitas das amigas - não vi homens da minha timeline comentando nada - souberam superficialmente do que está em debate.
Criminalizar a mulher por interromper a gestação, algo que ela não fez sozinha, é o que está em jogo. A questão é descriminalizar o aborto. Defendem a total descriminzalição da maconha mas insistem em punir uma mulher que interrompeu uma gestação? Qual a lógica disto?
Aliás, o homem, dono do espermatozóide que fecundou o óvulo é o único que sai impune em qualquer que seja o cenário envolvendo os abortos. A legislação prevê punição para a mulher e para quem ajudá-la neste processo, geralmente o(a) médico(a). As penas vão de 1 a 10 anos de reclusão.
Se eu faria, fiz ou farei - esta não é a questão.
O Estado não tem que decidir sobre o futuro das mulheres com base na minha história ou na minha opinião.
É esta sociedade que deve decidir qual é o dever do Estado - laico, de acordo com a Constituição. O que o Estado deverá oferecer às mulheres:
1) atendimento adequado e seguro de saúde para as mulheres que decidem interromper a gestação
2) oferecer uma vaga numa penitenciária?
A estimativa diz que 1/3 das brasileiras já abortaram ou vão abortar. Elas estão em silêncio, culpabilizadas, silenciadas. O Estado tem que levar em conta esta estimativa.
O Estado deve levar em conta que mortalidade materna é a 4a maior causa de morte entre as brasileiras. Se aprofundarmos as estatísticas veremos que estas mortes tem cor e situação financeira evidenciadas.
Estas estatísticas nós temos...
mas e as estimativas de quantos são os homens que ao ouvirem a mulher dizer que estava grávida disseram: "tira".
Estes números, alguém tem?
quantos dos meus amigos, dos homens que conheço já disseram isto ao menos uma vez na vida?
Sugerir o aborto não é crime.
Defendo o direito da mulher decidir. Decidir se quer ter filhos, ou não. Se quer ter parto normal, ou não. Natural, doméstico. Defendo que as mulheres tenham acesso a diafragmas! Coletores menstruais! Que as indústrias farmacêuticas deixem de contar com nosso medo (mais uma vez, culpabilização da mulher pela gravidez) por anos a fio... 20 anos de vida fértil, sexualmente ativa e 20 anos de doses diárias de hormônios sintéticos ingeridos - que homem consome hormônios por 20 anos?
Mas o que tá difícil de aceitar, o que está dolorido de ler são os posicionamentos culpabilizando mulheres pela gestação, pela interrupção da gestação, convocando a(s) Igreja(s) para o útero de todas as mulheres. Tá difícil aceitar que as poucas mulheres no Legislativo Brasileiro estejam solitárias ou apagadas por legisladores que insistem em ignorar que representam a coisa pública. Tá difícil aceitar a decisão na mão de homens, que nunca enjoaram na gestação, que não tiveram ou não terão seus corpos e suas vidas profundamente modificadas por 3, 4 ou 43 semanas de gestação decidam por todas as mulheres deste país.




