quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

De protagonista solitária à criminosa, uma questão de misoginia

Cena 1
Anos 50.
Algum lugar do Brasil.

- Seu filho fez mal a minha filha.
O homem olha pra moça, cabisbaixa, e pergunta:
- Ele fez isto a você?
Ela diz: 
- Sim.
O homem olha para o rapaz e diz: então ele vai casar.

Anos 60
Em algum lugar do Brasil.
"Uma negra e uma criança nos braços, solitária na floresta de concreto e aço."
O homem, branco, desapareceu no mapa. Está por aí, se pá até já morreu. Sozinha ela criou um poeta.

Anos 90
Em qualquer lugar do Brasil.
Na sala, mãe e filha aguardam o pai chegar. Ele sempre se atrasa. Muitos compromissos e não abre mão de passar na academia. Ele entra. Senta.
- Marcelo, você precisa falar com seu amigo o Dr. André.
- André? por quê?
- Porque temos um assunto a resolver.
Ele, com cara de interrogação, não entende absolutamente nada. A filha tem 19 anos, 2o ano de comunicação social numa excelente universidade privada. Ele tem trabalhado 12h por dia para garantir que ela faça um intercâmbio em L.A.
- Marcelo, vc não entende nada! vc nunca participa de nada! sempre está atrasado! sempre preocupado com você e me deixa aqui sozinha pra resolver tudo. 
Ele continua sem entender nada.
- Eu já falei com a Selminha. A filha dela também precisou de um e custou 2 mil caracóis de vênus. Converse com teu amigo e veja se consegue um preço melhor do que este. Temos 2 semanas pra resolver isto.

2000
Ela sai do trabalho, apreensiva. Está sozinha.
Já fez este percurso inúmeras vezes. Passou pelo prédio outras tantas. Logo ali na esquina tem uma praça de alimentação.
Entra no elevador. Está vazio. É fim de expediente.
Ela entra no consultório. Dr. Francisco abre a porta. Calvo, baixo, avental na altura dos joelhos. Ele fecha a porta.
Ela sai de lá com um papel na mão.

A quem ela vai pedir emprestada esta grana? 
Não pode dizer aos pais - eles nem moram na cidade!
Se pedir esta grana pra tia, com certeza ela vai dizer pra mãe e o escarcéu estará armado.
Morando sozinha, pagando aluguel, fazendo pós-graduação, não sobra muito para poupar e ninguém guarda dinheiro pensando que um dia precisará dele para esta situação.
19h25. Vai chegar atrasada na aula de metodologia.


2010

O namorado da professora era um sedutor crônico. Sempre aparecia na universidade pra buscá-la, ao final de uma aula e, assim, aproveitava e conhecia as novas alunas. Pelo teor da carreira, a maioria são mulheres. Um prato cheio para os olhos e a boa conversa do rapaz.
Trazia encanto. Voz grave, palavras doces, culto.
Muita gente sabia que ele dava estas escapadas mesmo namorando uma mulher estonteante.

As jovens olhavam, admiravam, cobiçavam.
Alguns jovens também.
Ele percebia os olhares - excelente visão periférica - memorizava rostos.
Um café aqui, um livro emprestado lá, um dvd que ele trazia pra enriquecer no TCC desta ou daquela jovem jovem.
Nada aconteceu... até o carnaval.

O bloco passou, a noite estava linda, se encontraram em meio à folia. Ela fantasiada de Mulher Maravilha, ele um pirata.

Em abril, ela procura pela amiga militante. 
- Onde fica aquele grupo de apoio à mulher?

Estava sozinha. Já tinha um filho, 4 anos. Menino lindo, encantador, forte. Não tinha como criar outro, não agora. Ela queria a casa cheia de crianças mas queria um marido. O primeiro casamento terminara há 14 meses. Tudo era novo e desafiador.
O sexo foi com camisinha mas ela devia estar furada, tanto tempo jogada no fundo da bolsa.
O pirata não acreditou que fosse dele. Poderia ser qualquer um. Ele usou camisinha! Definitivamente não era dele.
Ela estava há 8m sem relações. Só esteve com ele. Sabia que era dele.
Agora tinha que resolver o assunto. Sozinha.

Cenários são vários.
Os relatos criados livremente baseados em filmes, livros, música.
Todas estas mulheres, classe média, estão sujeitas a interrupção da gestação. Em todas estas histórias a mulher protagonizou a solidão, a vergonha, a busca por apoio.

Para se fazer gente é preciso duas metades.
Em todas as histórias o homem é coadjuvante ou sujeito inexistente no encaminhamento da questão.
Em todas as histórias, a mulher correu risco de vida.
Em todas as histórias, a mulher correu o risco de ser denunciada e ir para a prisão.

Se é pra mandar pra prisão, sonho com uma história assim:

Ela, altiva, diante do juiz, ouve a advogada dizer:
- Aqui estão os exames que comprovam que Tiago Augusto era o pai da criança. 
O advogado de Tiago Augusto, irado, contesta:
- Ela era a mãe! ela tinha o dever sagrado de zelar pela vida de um inocente! Vilã, cruel! punição máxima para esta senhora!
- A questão é que o cliente do meu colega advogado tem condição financeira e de saúde que permitiria a ele ser apoio a esta mulher na decisão de levar a gestação adiante porém, ele insistiu que a interrupção fosse feita. Ofereceu pagar.
O advogado argumenta:
- Por que ele não tinha certeza se a criança era dele. Poderia ser de qualquer um!
- Mas ela, sabiamente, colheu uma mostra de DNA e mandou pro laboratório. Fez todos os exames antes de interromper a gestação. Senhor juiz, se o senhor vai aplicar a pena máxima a minha cliente, que ela se estenda a este cidadão. 

Eu tenho ficado chocada com algumas coisas que leio aqui.
Sei que vivemos um tempo em que as pessoas pouco leem ou o fazem com tanta pressa que não percebem o que está em jogo. Quero acreditar que muitas das amigas - não vi homens da minha timeline comentando nada - souberam superficialmente do que está em debate.

Criminalizar a mulher por interromper a gestação, algo que ela não fez sozinha, é o que está em jogo. A questão é descriminalizar o aborto. Defendem a total descriminzalição da maconha mas insistem em punir uma mulher que interrompeu uma gestação? Qual a lógica disto?

Aliás, o homem, dono do espermatozóide que fecundou o óvulo é o único que sai impune em qualquer que seja o cenário envolvendo os abortos. A legislação prevê punição para a mulher e para quem ajudá-la neste processo, geralmente o(a) médico(a). As penas vão de 1 a 10 anos de reclusão.

Se eu faria, fiz ou farei - esta não é a questão.
O Estado não tem que decidir sobre o futuro das mulheres com base na minha história ou na minha opinião.
É esta sociedade que deve decidir qual é o dever do Estado - laico, de acordo com a Constituição. O que o Estado deverá oferecer às mulheres: 
1) atendimento adequado e seguro de saúde para as mulheres que decidem interromper a gestação
2) oferecer uma vaga numa penitenciária?

A estimativa diz que 1/3 das brasileiras já abortaram ou vão abortar. Elas estão em silêncio, culpabilizadas, silenciadas. O Estado tem que levar em conta esta estimativa.
O Estado deve levar em conta que mortalidade materna é a 4a maior causa de morte entre as brasileiras. Se aprofundarmos as estatísticas veremos que estas mortes tem cor e situação financeira evidenciadas.

Estas estatísticas nós temos...
mas e as estimativas de quantos são os homens que ao ouvirem a mulher dizer que estava grávida disseram: "tira".
Estes números, alguém tem?
quantos dos meus amigos, dos homens que conheço já disseram isto ao menos uma vez na vida?
Sugerir o aborto não é crime.


Defendo o direito da mulher decidir. Decidir se quer ter filhos, ou não. Se quer ter parto normal, ou não. Natural, doméstico. Defendo que as mulheres tenham acesso a diafragmas! Coletores menstruais! Que as indústrias farmacêuticas deixem de contar com nosso medo (mais uma vez, culpabilização da mulher pela gravidez) por anos a fio... 20 anos de vida fértil, sexualmente ativa e 20 anos de doses diárias de hormônios sintéticos ingeridos - que homem consome hormônios por 20 anos?

Mas o que tá difícil de aceitar, o que está dolorido de ler são os posicionamentos culpabilizando mulheres pela gestação, pela interrupção da gestação, convocando a(s) Igreja(s) para o útero de todas as mulheres. Tá difícil aceitar que as poucas mulheres no Legislativo Brasileiro estejam solitárias ou apagadas por legisladores que insistem em ignorar que representam a coisa pública. Tá difícil aceitar a decisão na mão de homens, que nunca enjoaram na gestação, que não tiveram ou não terão seus corpos e suas vidas profundamente modificadas por 3, 4 ou 43 semanas de gestação decidam por todas as mulheres deste país.
www.facebook.com/quebrandootabu

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

As águas, a febre

Minha cabeça é de água.
Água quente, água com movimento
forte, destemido. 

Não é remanso, não é contemplativo.
Tem serenidade e tem transparência... 
Transparênca... glasnost...
Moscou na minha vida, 2 décadas depois.

Minha febre me visitou.
Minha febre pelo mundo, o mundo que me intriga.
Meu encantamento foi despertado por águas profundas,
duplamente profundas.

Com o encantamento veio a (re)descoberta,
a franqueza e a sincronicidade do encontro das águas.

Uma pororoca urbana, emocional,
as águas do corpo, a água que o corpo pede,
o calor, a febre. 

Um presente para minha vida.
Alegre, divertido e surpreendente, como são os presentes.
Para este momento, minha vida é febre,
encantamento e encontro de águas.

Para este momento vejo o charme do mundo,
com aquilo que me intriga, me leva e me ganha.
Não poderia estar mais agradecida!


domingo, 16 de junho de 2013

Coragem, o contrário do medo

Coragem pra tomar uma atitude,
pra saber a hora de parar;
coragem pra calar quando o peito quer explodir
e vc sabe que a explosão não construirá nada.

Medo de ficar
o tempo atropelar,
o passado voltar - será que ele saiu de cena alguma vez?
Medo de arriscar, deixar tudo pra trás e perder o chão.

Ir? Ficar?
Falar? Calar?
as dicotomias são perenes e minha disposição para elas, sazonais.

Hoje o dono da estrada, dos caminhos, comeu.
O sábado é dela, sempre será dela e no dia dela, ele comeu.
Meu desejo é de que eles, com suas espadas e facões,
com suas sabedorias e percepções
me orientem, me tranquilizem e me mostrem o caminho.

não quero riqueza; quero saúde e prosperidade.
Ppreciso de calma na minha cabeça.
Preciso senti-los por perto, segurando minha mão, olhando meu caminhar.
Preciso de outra fase, uma com menos guerras com mais coragem.

Eles me deram uma nova família: uma nova mulher e um novo homem na vida.
Irmandade, cuidado, compadrio, amor, axé.
Só por tudo isto, já sou tão agradecida...
me sinto honrada em tê-los comigo.
Me sinto privilegiada em sentir que neste caminho,
que tem sido espinhoso e árido,
não estou sozinha, nem desamparada.

A dona dos rios e cachoeiras é a senhora do meu destino.
O dono do ferro me dá força e um espírito de luta,
uma força que não me permite ficar no chão.
E meu coração, cheio de gratidão, pelo presente
pelo cheiro de café na casa,
pelo dendê estalando dentro da minha cabeça,
pela boca pedindo mel
os pés pedindo por chão,
o riso da erê ecoando na casa,
a voz grave e confiante,
cheia de segurança, amor e convicção,
ecoando pela casa, com a seriedade de quem está comprometido.

Meu tateto, minha fortaleza, conhece tão bem meu coração e meu desafio,
assim como soube construir os caminhos para trazê-los,
ele saberá construir os caminhos para que eu possa seguir,
com dignidade e bem acompanha.

Ir ou ficar? importa, sim mas, o que não muda é que terei meus orixás e estas pessoas comigo e em todo lugar.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

você viu a periferia da tua janela e agora viaja pelo mundo dizendo saber quem são elas.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Macho demoníaco e alianças femininas

Tenho um novo livro de cabeceira: "O Macho Demoníaco - as origens da agressividade humana" do inglês Richard Wrangham, professor da Universidade de Harvard e diretor do Kibale Chimpanzee Project de Uganda, patrocinado pela National Geographic Society, e de Dale Peterson, pesquisador especializado em primatas e escritor de livros científicos

Quem me indicou a leitura, há uma década, sabia que este livro me intrigaria.
 
É uma investigação com os primatas: Chimpanzé, Bonobo, Homem, Gorila e Orangotango. A pergunta do pesquisador é: "por que atacamos quem é da nossa mesma espécie?" Ele busca a resposta no macho: seriam questões biológicas? é a luta pela expansão dos genes? poder? território? comida? 
Ele descreve várias situações de violência contra as fêmeas em todos os primatas. Os bonobos são os primatas que apresentam violência em índices consideravelmente menores. Será coincidência este grupo ter uma organização centrada nas fêmeas?

"(...) os bonobos nos guiam  na especulação sobre o significado do poder feminino, e ambos suscitam a noção importante de que o verdadeiro poder feminino  não é simplesmente uma imagem invertida do poder masculino, mas algo completamente diferente, em amplitude e características. (...) São matriotas mas não se tornam imperialistas." pág. 292

(...) As respostas estratégicas desenvolvidas pelas mulheres ante o demonismo masculino incluem contramedidas e desafio, mas também incluem colaboração. Ou seja, enquanto os homens evoluíram no sentido de tornarem machos demoníacos, parece provável que mulheres tenham evoluído no sentido de preferirem como parceiros machos demoníacos (ou machos demoníacos de imitação). Essa inclinação faz sentido, em termos evolutivos, por duas razões. A primeira é que o macho demoníaco é aquele que tende a melhor proteger a fêmea contra a violência de outros machos, e assim garantir a segurança dela e de sua prole. A segunda esta em que, enquanto os machos demoníacos forem os reprodutores de maior êxito, qualquer fêmea que se acasale com ele terá filhos que serão por sua vez, bons reprodutores.

(...) As mulheres tendem, até certo ponto, a ser atraídas por características do demonismo masculino. 

(...) Embora muitas mulheres preferissem que não fossem assim no mundo real o "machão" se vê assediado por admiradoras, enquanto que seu amigo discreto fica com o copo de vinho, sozinho, sentado no bar. Individualmente, os homens e as mulheres que compõem nossa espécie estão, de uma maneira extraordinária, prontos pra admirar, amar e recompensar o demonismo masculino em muitas de suas manifestações. Essa admiração, esse amor e essa recompensa perpetuam a continuação, geração após geração, do macho demoníaco dentro de nós.


Bonobo fêmea by Christopher Lynn


"Soltando-se da armadilha
(...) Entre os bonobos, porém, as fêmeas (libertadas das limitações ecológicas) responderam ao problema de maneira eficiente. O resultado, como dissemos, foi de fato uma revolução na natureza de sua sociedade; a passagem do que num certo momento foi uma forma desagradável de patriarcado para um mundo tolerante e encantador, no qual os sexos são iguais."

"Mesmo se não há grupo humano algum em que as mulheres tenham conquistado grau comparável  de igualdade, as mulheres em todas as partes do mundo têm muito do mesmo potencial das bonobos fêmeas ara mudar o sistema. Em todo os lugares, as mulheres desenvolvem redes sociais de apoio mútuo. Por toda parte, as mulheres exercem alguma influência sobre seus maridos, filhos e outros homens, poder muitas vezes muito mais forte do que parece à primeira vista. O problema está em que, e todos os lugares, as mulheres são apanhadas numa armadilha. Se elas se dão um apoio muito grande, tornam-se passíveis de perder o que que querem, que é o investimento e a proteção dos homens mais desejáveis."

(...) "Individualmente, as mulheres são apanhadas na armadilha e querer um homem  que as proteja e sustente. Como um grupo, as mulheres vêem seus interesses gerais serem ignorados ou sufocados porque algumas mulheres se põe do lado dos homens."

"Os bonobos nos mostram que essa armadilha pode ser destruída através de alianças femininas. Entre os humanos, o equivalente direto seria se as mulheres se mantivessem unidas, dia e noite, em grupos tão grandes e bem-armados que pudessem sempre reprimir a hostilidade de homens agressivos e desordeiros. A perspectiva parece fantástica demais para continuar sendo debatida. Felizmente, os humanos são capazes de criar outras possibilidades." (pág 298)

Eu entendo que a formação de alianças femininas são uma destas possibilidades citada pelo autor. Potencializar o grupo, fortalecer as discussões, formar uma rede de apoio e de trocas, ajuda a mulher a se sentir mais fortalecida.
Porém, se as questões que a enfraquece são da vida privada, como levar isto para a esfera pública?

Se a situação envolve uma figura paterna que não exerce a paternidade e esta não consegue ser resolvida pelos caminhos jurídicos em tempo cronológico ideal e aceitável, mas num tempo possível. O sistema judiciário tem mecanismos para resolver a questão financeira mas não o convívio. E, em algumas situações, melhor que seja assim. Assim como várias outras questões cotidianas que o Direito não tem pernas pra alcançar mas, nós, em sociedade e aliança podemos dar, sim, uma resposta.
Se hoje sou eu quem vivencia determinada situação, ontem foi outra mulher e amanhã será vivenciada por uma terceira mulher. O que há em comum? Situações que envolvem mulheres e homens de comportamento abusivo e/ou irresponsável. 

Penso que aqui cabe a armadilha que o investigador apontou em O Macho Demoníaco. Em determinados momentos apoiamos um homem de comportamento demoníaco. 
Bom, não tenho uma resposta. Tenho um posicionamento e, assim como muitas de nós, tenho uma história. Para ela, com as bençãos dos ancestrais, estou trilhando o caminho bem amparada mas, sempre aparece quem não conhece nossa história e, por mais que Dorah Madiba esteja bem e a gente tenha sobrevivido até às maluquices que nos surgiram, meu objetivo não é conseguir aliadas para mim mas buscar a reflexão no campo do trabalho, sobre quais são os valores e as posturas em nosso trabalho. 
Quero apostar na aliança feminina, na experiência bonobo em que  as fêmeas são o centro da sociedade, compartilham afeto, comida e posição no grupo porém, seguem se relacionando com os machos, sem desprezá-los ou descartá-los.
Já o macho, deixar de ser demoníaco? hum.. não sei se viverei para ver isto.
Mas há um caminho.. fui apresentada a este vídeo e ele trouxe boas reflexões.
fica a dica:

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Cervantes y yo

Levei tanto tempo pra ter coragem de ler Dom Quixote que, não sei se lamento ou comemoro.  A comemoração: porque me apresentou a novos autores... Lamento porque não haverá nada semelhante, mesmo no século XXI.
Com a enxurrada de informações, de acessos, de possibilidades - ainda assim - não haverá nada que se assemelhe a este livro.
Nossa capacidade de sonhar é podada, diante de realidade(s) tão dura(s).
O tempo que temos disponível para nos debruçarmos em qualquer tema de nossa vida - seja ele no aspecto criativo ou não, é tão reduzido que uma construção tão bem feita, como a de Quixote, com sua alucinação e a realidade, não tem como serem elaboradas.
Ainda que levemos uma vida lendo os melhores livros, bebendo das melhores fontes, não sei se será possível, neste início de século, deixarmos um legado tão rico quanto o que Cervantes deixou.
Não estou apaixonada pelo livro. Estou encantada pela escrita, pela sutileza entre o real e o imaginário.
Sigo apaixonada por outros escritores, por outros livros. Me encantam histórias escritas por Gabriel Garcia Marquez, cuja memória se transformou em realismo mágico. Ainda suspiro com Te di la vida entera, de Zoe Valdes; tenho paixão por En el reino deste mundo, de Alejo Carpentier. Terra Sonâmbula seguirá como um dos livros mais belos que li. Recentemente, A Ilha sob o mar, de Isabel Allende, me tirou o fôlego, com a história de Zarité , uma haitiana que passa a viver em New Orleans. New Orleans guarda outras histórias, como as de Anne Rice.
No mundo há mais livros apaixonantes do que homens capazes de despertar o mesmo encantamento. Agora que encarei Dom Quixote, irei até o fim mas com a certeza de que estou diante de uma obra ímpar na história da humanidade.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Antagonismos

Minhas referências são antagônicas mas não são incoerentes.
Li, depois de anos ressoando a dica no meu ouvido, O Macho Demoníaco. Um super trabalho antropológico que investiga a origem da agressividade humana. A partir da observação de outros primatas - chimpanzé, orangotango, gorila e bonobo, o autor inglês Richard Wrangham reflete sobre o comportamento agressivo dos homens. A pergunta dele é: como é possível atacarmos um de nossa espécie?? Bom, considerando o que vem acontecendo em vários bairros da periferia paulistana, pouca coisa me espanta, nesta indagação.
O fato é, este livro me fez desacreditar da grande maioria dos primatas humanos machos. A credibilidade deles comigo já não andava em alta mas, confirmar que há algo intrínseco a eles em nosso modo de vida, algo que faz o confronto ser eminente, foi determinante para meu desejo de mantê-los distante do meu pote dourado.
A partir da leitura concluí que há uma tendência destes machos em se acharem superiores a nosotras.
A desigualdade está dada. Não é biológica, não é histórica, não é social. É tudo isto junto.
Eles podem uma série de coisas... podem escolher se serão pais ou progenitores, sem NENHUM constrangimento, peso na consciência ou culpa.
Assim como "podem" agredir mulheres, verbal, psicológica ou fisicamente  sem nenhum pudor da parte do macho-agressor. A vergonha está com a mulher ofendida, que nem se permite admitir ofendida ou agredida. Ele segue se relacionando com os outros machos - e fêmeas também! Os amigos continuam amigos, ninguém toca no assunto. Os negócios continuam sendo realizados, não há retaliação ou represália social por parte de atitudes agressivas destes machos.
Para uma mudança, seria preciso haver uma espécie de solidariedade feminina.
Bom, doce ilusão a minha. Estou num mundo em que alguns homens são marcados como gado por algumas mulheres. Uma vez que uma determinada mulher tenha "pegado" um cara, a preferência é sempre dela, ainda que ele saia com outras mulheres. E, se ele engravida uma delas, ele segue "sendo" da primeira que o pegou e a grávida? quem mandou se meter? 
Amor? ah.. não tá na pauta. Só para a desavisada grávida, aliás, é por isto que a gente engravida e assim garantimos a continuação da espécie.

De outro lado tem Oxum, linda, sábia, lembrando a nosotras que transitamos num mundo de machos porém não somos como eles, nem é o objetivo. Há um mito que conta que ela causa com elegância quando os homens a excluem de uma reunião - deixa as terras inférteis e os oborós se vêem obrigados a convidá-la para estes encontros. Em outro, ela negocia com Exu para que possa conhecer o segredo da leitura dos búzios - e ela passa a manjar do lance como poucos. E há outro mito, que descobri há pouco tempo, que traduz super bem o que tenho visto acontecer - ando expectadora em alguns aspectos da vida.
Ogum invade as terras de Oxum e o povo é dominado à força porém, Oxum, a rainha do lugar, deveria ser conquistada. Lá vai o cara presenteá-la... Alguém disse que ela gosta de pássaros. Ele manda buscar uns pássaros lindos não sei de onde. Ela nem trela dá. Daí ele sabe que ela gosta de comer carne de animal fêmea. Ele manda fazer um monte de prato pra ela. E, mais uma vez, ela não demonstra empolgação. Daí ele fica cismado e vai conversar com o adivinho que diz: "quer o amor de Oxum? pare de oferecer presentes e ofereça sentimento".
E Ogum fica quebrando a cabeça. O que pássaros representam pra ele? um monte de barulho. E aqueles quitutes todos? uma comida sem graça. O que significa muito pra ele? A espada.
E pronto! Era esse o caminho pra chegar até o coração da Oxum. De nada adiantava presentes sem valor emocional. O que valia, para ela, era o cuidado, a atenção e compartilhar do mundo dele.
Não há um "felizes para sempre". Há um "caminham juntos".

Não manjo de arquétipos mas tô fazendo uma livre leitura aqui, representações minhas. Longe de fazer afirmações sobre as divindades mas, o que elas representam para mim, neste momento.

Ogum é o macho demoníaco. O cara é arredio, grosso, caminha sozinho, faz tudo do jeito dele, agride, bebe, fica sozinho, trabalha sozinho. O cara é leal mas lealdade não é pra qualquer um. Oxum topa fazer parte deste mundo - e quantas de nós, fazemos a mesma coisa??? Mas ela topa porque ele se deu conta do sentimento dele, ele abriu espaço para ela, ele compartilhou algo significativo pra ele com ela.
Mas há a outra parte... ele tem cuidado e atenção com ela.
Não é só um lance de satisfazer os desejos dele. Encontrar o cara quando ELE quer, aceitar que ELE é arredio (ou inseguro, ou imaturo, ou um cara que ainda não deu certo na vida e por aí vaí.. mil desculpas para não se comprometer e à mina, cabe aceitá-lo porque ELE É ASSIM.)

Conheço tanta mulher PHODA!
Inteligente, bonita, madura, lúcida, guerreira, fazendo mil correrias pra dar conta de realizar seu sonho, de criar seu(s) filho(s), fazer mestrado/ doutorado, pagar as contas. Conheço um monte de mulheres que merecem respeito e admiração. Mulher de verdade, não capa de revista, fake e fazedora de escoriações na autoestima.
E essa mulherada tem em suas vidas uns caras que não se dão ao trabalho de estarem na vida delas, de terem cuidado com elas.. mas elas estão lá, cuidando do cara e de fazerem parte da vida dele.
Já tive minha parcela disto aí também.. Sempre penso que em doses menores do que as que assisti ao longo da vida porque minha praticidade supera meu romantismo e meu romantismo é um bolero cantado pela Omara Portuondo.

Eu não estou no centro desta questão - estou na periferia, não quero macho algum por perto.. exceto se for chinês. Mas até isto aí, os orixás se encarregam. Porque se for pra não ter cuidado ou atenção comigo, me deixe sozinha.

Se for só pra desfrutar do sabor, do bom cheiro do pote dourado, que vá buscar em outras freguesias - tem vários potes por aí... muitos, na pegada de "verem no que dá e não dá em nada".

Se é pra chegar, que chegue com respeito, amizade, cuidado, atenção e que compartilhe o que há de melhor de si mesmo. Do macho demoníaco, eu já conheço o suficiente para esta vida e tô dispensando a corte.

Para mim, isto é amor próprio, autoestima. E, como diz o nome é meu e ninguém tem o direito de me tirar. Só tiram se eu permitir.
Não tenho latente a doçura de minha mameta mas é isto que desejo a estas mulheres maravilhosas que conheço, sabe? que tenham companheiros que tenham cuidados com ela, com a mulher que são e que, se não for isto, que elas fiquem bem sozinhas. Dignidade não se acha em qualquer esquina.

Ye, yê, minha mãe sábia, guerreira! que as histórias nos ensinem hoje e sempre!