quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

você viu a periferia da tua janela e agora viaja pelo mundo dizendo saber quem são elas.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Macho demoníaco e alianças femininas

Tenho um novo livro de cabeceira: "O Macho Demoníaco - as origens da agressividade humana" do inglês Richard Wrangham, professor da Universidade de Harvard e diretor do Kibale Chimpanzee Project de Uganda, patrocinado pela National Geographic Society, e de Dale Peterson, pesquisador especializado em primatas e escritor de livros científicos

Quem me indicou a leitura, há uma década, sabia que este livro me intrigaria.
 
É uma investigação com os primatas: Chimpanzé, Bonobo, Homem, Gorila e Orangotango. A pergunta do pesquisador é: "por que atacamos quem é da nossa mesma espécie?" Ele busca a resposta no macho: seriam questões biológicas? é a luta pela expansão dos genes? poder? território? comida? 
Ele descreve várias situações de violência contra as fêmeas em todos os primatas. Os bonobos são os primatas que apresentam violência em índices consideravelmente menores. Será coincidência este grupo ter uma organização centrada nas fêmeas?

"(...) os bonobos nos guiam  na especulação sobre o significado do poder feminino, e ambos suscitam a noção importante de que o verdadeiro poder feminino  não é simplesmente uma imagem invertida do poder masculino, mas algo completamente diferente, em amplitude e características. (...) São matriotas mas não se tornam imperialistas." pág. 292

(...) As respostas estratégicas desenvolvidas pelas mulheres ante o demonismo masculino incluem contramedidas e desafio, mas também incluem colaboração. Ou seja, enquanto os homens evoluíram no sentido de tornarem machos demoníacos, parece provável que mulheres tenham evoluído no sentido de preferirem como parceiros machos demoníacos (ou machos demoníacos de imitação). Essa inclinação faz sentido, em termos evolutivos, por duas razões. A primeira é que o macho demoníaco é aquele que tende a melhor proteger a fêmea contra a violência de outros machos, e assim garantir a segurança dela e de sua prole. A segunda esta em que, enquanto os machos demoníacos forem os reprodutores de maior êxito, qualquer fêmea que se acasale com ele terá filhos que serão por sua vez, bons reprodutores.

(...) As mulheres tendem, até certo ponto, a ser atraídas por características do demonismo masculino. 

(...) Embora muitas mulheres preferissem que não fossem assim no mundo real o "machão" se vê assediado por admiradoras, enquanto que seu amigo discreto fica com o copo de vinho, sozinho, sentado no bar. Individualmente, os homens e as mulheres que compõem nossa espécie estão, de uma maneira extraordinária, prontos pra admirar, amar e recompensar o demonismo masculino em muitas de suas manifestações. Essa admiração, esse amor e essa recompensa perpetuam a continuação, geração após geração, do macho demoníaco dentro de nós.


Bonobo fêmea by Christopher Lynn


"Soltando-se da armadilha
(...) Entre os bonobos, porém, as fêmeas (libertadas das limitações ecológicas) responderam ao problema de maneira eficiente. O resultado, como dissemos, foi de fato uma revolução na natureza de sua sociedade; a passagem do que num certo momento foi uma forma desagradável de patriarcado para um mundo tolerante e encantador, no qual os sexos são iguais."

"Mesmo se não há grupo humano algum em que as mulheres tenham conquistado grau comparável  de igualdade, as mulheres em todas as partes do mundo têm muito do mesmo potencial das bonobos fêmeas ara mudar o sistema. Em todo os lugares, as mulheres desenvolvem redes sociais de apoio mútuo. Por toda parte, as mulheres exercem alguma influência sobre seus maridos, filhos e outros homens, poder muitas vezes muito mais forte do que parece à primeira vista. O problema está em que, e todos os lugares, as mulheres são apanhadas numa armadilha. Se elas se dão um apoio muito grande, tornam-se passíveis de perder o que que querem, que é o investimento e a proteção dos homens mais desejáveis."

(...) "Individualmente, as mulheres são apanhadas na armadilha e querer um homem  que as proteja e sustente. Como um grupo, as mulheres vêem seus interesses gerais serem ignorados ou sufocados porque algumas mulheres se põe do lado dos homens."

"Os bonobos nos mostram que essa armadilha pode ser destruída através de alianças femininas. Entre os humanos, o equivalente direto seria se as mulheres se mantivessem unidas, dia e noite, em grupos tão grandes e bem-armados que pudessem sempre reprimir a hostilidade de homens agressivos e desordeiros. A perspectiva parece fantástica demais para continuar sendo debatida. Felizmente, os humanos são capazes de criar outras possibilidades." (pág 298)

Eu entendo que a formação de alianças femininas são uma destas possibilidades citada pelo autor. Potencializar o grupo, fortalecer as discussões, formar uma rede de apoio e de trocas, ajuda a mulher a se sentir mais fortalecida.
Porém, se as questões que a enfraquece são da vida privada, como levar isto para a esfera pública?

Se a situação envolve uma figura paterna que não exerce a paternidade e esta não consegue ser resolvida pelos caminhos jurídicos em tempo cronológico ideal e aceitável, mas num tempo possível. O sistema judiciário tem mecanismos para resolver a questão financeira mas não o convívio. E, em algumas situações, melhor que seja assim. Assim como várias outras questões cotidianas que o Direito não tem pernas pra alcançar mas, nós, em sociedade e aliança podemos dar, sim, uma resposta.
Se hoje sou eu quem vivencia determinada situação, ontem foi outra mulher e amanhã será vivenciada por uma terceira mulher. O que há em comum? Situações que envolvem mulheres e homens de comportamento abusivo e/ou irresponsável. 

Penso que aqui cabe a armadilha que o investigador apontou em O Macho Demoníaco. Em determinados momentos apoiamos um homem de comportamento demoníaco. 
Bom, não tenho uma resposta. Tenho um posicionamento e, assim como muitas de nós, tenho uma história. Para ela, com as bençãos dos ancestrais, estou trilhando o caminho bem amparada mas, sempre aparece quem não conhece nossa história e, por mais que Dorah Madiba esteja bem e a gente tenha sobrevivido até às maluquices que nos surgiram, meu objetivo não é conseguir aliadas para mim mas buscar a reflexão no campo do trabalho, sobre quais são os valores e as posturas em nosso trabalho. 
Quero apostar na aliança feminina, na experiência bonobo em que  as fêmeas são o centro da sociedade, compartilham afeto, comida e posição no grupo porém, seguem se relacionando com os machos, sem desprezá-los ou descartá-los.
Já o macho, deixar de ser demoníaco? hum.. não sei se viverei para ver isto.
Mas há um caminho.. fui apresentada a este vídeo e ele trouxe boas reflexões.
fica a dica:

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Cervantes y yo

Levei tanto tempo pra ter coragem de ler Dom Quixote que, não sei se lamento ou comemoro.  A comemoração: porque me apresentou a novos autores... Lamento porque não haverá nada semelhante, mesmo no século XXI.
Com a enxurrada de informações, de acessos, de possibilidades - ainda assim - não haverá nada que se assemelhe a este livro.
Nossa capacidade de sonhar é podada, diante de realidade(s) tão dura(s).
O tempo que temos disponível para nos debruçarmos em qualquer tema de nossa vida - seja ele no aspecto criativo ou não, é tão reduzido que uma construção tão bem feita, como a de Quixote, com sua alucinação e a realidade, não tem como serem elaboradas.
Ainda que levemos uma vida lendo os melhores livros, bebendo das melhores fontes, não sei se será possível, neste início de século, deixarmos um legado tão rico quanto o que Cervantes deixou.
Não estou apaixonada pelo livro. Estou encantada pela escrita, pela sutileza entre o real e o imaginário.
Sigo apaixonada por outros escritores, por outros livros. Me encantam histórias escritas por Gabriel Garcia Marquez, cuja memória se transformou em realismo mágico. Ainda suspiro com Te di la vida entera, de Zoe Valdes; tenho paixão por En el reino deste mundo, de Alejo Carpentier. Terra Sonâmbula seguirá como um dos livros mais belos que li. Recentemente, A Ilha sob o mar, de Isabel Allende, me tirou o fôlego, com a história de Zarité , uma haitiana que passa a viver em New Orleans. New Orleans guarda outras histórias, como as de Anne Rice.
No mundo há mais livros apaixonantes do que homens capazes de despertar o mesmo encantamento. Agora que encarei Dom Quixote, irei até o fim mas com a certeza de que estou diante de uma obra ímpar na história da humanidade.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Antagonismos

Minhas referências são antagônicas mas não são incoerentes.
Li, depois de anos ressoando a dica no meu ouvido, O Macho Demoníaco. Um super trabalho antropológico que investiga a origem da agressividade humana. A partir da observação de outros primatas - chimpanzé, orangotango, gorila e bonobo, o autor inglês Richard Wrangham reflete sobre o comportamento agressivo dos homens. A pergunta dele é: como é possível atacarmos um de nossa espécie?? Bom, considerando o que vem acontecendo em vários bairros da periferia paulistana, pouca coisa me espanta, nesta indagação.
O fato é, este livro me fez desacreditar da grande maioria dos primatas humanos machos. A credibilidade deles comigo já não andava em alta mas, confirmar que há algo intrínseco a eles em nosso modo de vida, algo que faz o confronto ser eminente, foi determinante para meu desejo de mantê-los distante do meu pote dourado.
A partir da leitura concluí que há uma tendência destes machos em se acharem superiores a nosotras.
A desigualdade está dada. Não é biológica, não é histórica, não é social. É tudo isto junto.
Eles podem uma série de coisas... podem escolher se serão pais ou progenitores, sem NENHUM constrangimento, peso na consciência ou culpa.
Assim como "podem" agredir mulheres, verbal, psicológica ou fisicamente  sem nenhum pudor da parte do macho-agressor. A vergonha está com a mulher ofendida, que nem se permite admitir ofendida ou agredida. Ele segue se relacionando com os outros machos - e fêmeas também! Os amigos continuam amigos, ninguém toca no assunto. Os negócios continuam sendo realizados, não há retaliação ou represália social por parte de atitudes agressivas destes machos.
Para uma mudança, seria preciso haver uma espécie de solidariedade feminina.
Bom, doce ilusão a minha. Estou num mundo em que alguns homens são marcados como gado por algumas mulheres. Uma vez que uma determinada mulher tenha "pegado" um cara, a preferência é sempre dela, ainda que ele saia com outras mulheres. E, se ele engravida uma delas, ele segue "sendo" da primeira que o pegou e a grávida? quem mandou se meter? 
Amor? ah.. não tá na pauta. Só para a desavisada grávida, aliás, é por isto que a gente engravida e assim garantimos a continuação da espécie.

De outro lado tem Oxum, linda, sábia, lembrando a nosotras que transitamos num mundo de machos porém não somos como eles, nem é o objetivo. Há um mito que conta que ela causa com elegância quando os homens a excluem de uma reunião - deixa as terras inférteis e os oborós se vêem obrigados a convidá-la para estes encontros. Em outro, ela negocia com Exu para que possa conhecer o segredo da leitura dos búzios - e ela passa a manjar do lance como poucos. E há outro mito, que descobri há pouco tempo, que traduz super bem o que tenho visto acontecer - ando expectadora em alguns aspectos da vida.
Ogum invade as terras de Oxum e o povo é dominado à força porém, Oxum, a rainha do lugar, deveria ser conquistada. Lá vai o cara presenteá-la... Alguém disse que ela gosta de pássaros. Ele manda buscar uns pássaros lindos não sei de onde. Ela nem trela dá. Daí ele sabe que ela gosta de comer carne de animal fêmea. Ele manda fazer um monte de prato pra ela. E, mais uma vez, ela não demonstra empolgação. Daí ele fica cismado e vai conversar com o adivinho que diz: "quer o amor de Oxum? pare de oferecer presentes e ofereça sentimento".
E Ogum fica quebrando a cabeça. O que pássaros representam pra ele? um monte de barulho. E aqueles quitutes todos? uma comida sem graça. O que significa muito pra ele? A espada.
E pronto! Era esse o caminho pra chegar até o coração da Oxum. De nada adiantava presentes sem valor emocional. O que valia, para ela, era o cuidado, a atenção e compartilhar do mundo dele.
Não há um "felizes para sempre". Há um "caminham juntos".

Não manjo de arquétipos mas tô fazendo uma livre leitura aqui, representações minhas. Longe de fazer afirmações sobre as divindades mas, o que elas representam para mim, neste momento.

Ogum é o macho demoníaco. O cara é arredio, grosso, caminha sozinho, faz tudo do jeito dele, agride, bebe, fica sozinho, trabalha sozinho. O cara é leal mas lealdade não é pra qualquer um. Oxum topa fazer parte deste mundo - e quantas de nós, fazemos a mesma coisa??? Mas ela topa porque ele se deu conta do sentimento dele, ele abriu espaço para ela, ele compartilhou algo significativo pra ele com ela.
Mas há a outra parte... ele tem cuidado e atenção com ela.
Não é só um lance de satisfazer os desejos dele. Encontrar o cara quando ELE quer, aceitar que ELE é arredio (ou inseguro, ou imaturo, ou um cara que ainda não deu certo na vida e por aí vaí.. mil desculpas para não se comprometer e à mina, cabe aceitá-lo porque ELE É ASSIM.)

Conheço tanta mulher PHODA!
Inteligente, bonita, madura, lúcida, guerreira, fazendo mil correrias pra dar conta de realizar seu sonho, de criar seu(s) filho(s), fazer mestrado/ doutorado, pagar as contas. Conheço um monte de mulheres que merecem respeito e admiração. Mulher de verdade, não capa de revista, fake e fazedora de escoriações na autoestima.
E essa mulherada tem em suas vidas uns caras que não se dão ao trabalho de estarem na vida delas, de terem cuidado com elas.. mas elas estão lá, cuidando do cara e de fazerem parte da vida dele.
Já tive minha parcela disto aí também.. Sempre penso que em doses menores do que as que assisti ao longo da vida porque minha praticidade supera meu romantismo e meu romantismo é um bolero cantado pela Omara Portuondo.

Eu não estou no centro desta questão - estou na periferia, não quero macho algum por perto.. exceto se for chinês. Mas até isto aí, os orixás se encarregam. Porque se for pra não ter cuidado ou atenção comigo, me deixe sozinha.

Se for só pra desfrutar do sabor, do bom cheiro do pote dourado, que vá buscar em outras freguesias - tem vários potes por aí... muitos, na pegada de "verem no que dá e não dá em nada".

Se é pra chegar, que chegue com respeito, amizade, cuidado, atenção e que compartilhe o que há de melhor de si mesmo. Do macho demoníaco, eu já conheço o suficiente para esta vida e tô dispensando a corte.

Para mim, isto é amor próprio, autoestima. E, como diz o nome é meu e ninguém tem o direito de me tirar. Só tiram se eu permitir.
Não tenho latente a doçura de minha mameta mas é isto que desejo a estas mulheres maravilhosas que conheço, sabe? que tenham companheiros que tenham cuidados com ela, com a mulher que são e que, se não for isto, que elas fiquem bem sozinhas. Dignidade não se acha em qualquer esquina.

Ye, yê, minha mãe sábia, guerreira! que as histórias nos ensinem hoje e sempre!





quarta-feira, 15 de agosto de 2012

15 de Agosto

O que dizer sobre a melhor pessoa do mundo?
ela é a responsável por me dar chão e medo de altura.
Tem o sorriso mais encantador que já vi.
Medo de nada.
Observadora
Carinhosa.
Tem seus momentos onça.
Desconfiada mas "vai com todo mundo",
permite o novo acontecer.
Não sei se ela É assim, se ESTÁ assim...
Sei que ela é a melhor pessoa do mundo!
Tem o abraço mais gostoso, o beijo mais suave.
Tem uma determinação que me surpreende,
um apetite de elefante, é vegetariana
e louca por pipoca.
Gosta de música, de show ao vivo, de sambar com a mão na cintura,
tocar a flauta, o caxixi, o pandeiro.
Cantarola o dia inteiro.
Não dá trabalho pra dormir,
Rola pela cama durante a noite toda.
Gosta de sair do banho e andar pela casa,
de experimentar chapéus,
quer passar batom,
sair de casa com bolsa,
levar a própria mochila.
Na lotação não quer ficar sentada no colo
e dá tchau pro motorista quando a gente desce.
Chega na estação vila matilde e grita: "chegou!!
gosta de brincar de cadê-achou.
o skype toca ela chama pelo Júlio,
no telefone que falar com Aline pra saber de Zuri e Bibi.
Também quer falar com Nana ao telefone e jogar todo seu charme pra esta mãezinha.
Do nada começa a falar da Dinda ou da vovó Lourdes.
Fala "a minha vovô!" e não deixa desligar o telefone
quando é com ele que tá falando e sempre pergunta por Luccas -
a relação tapas-beijos mais intensa de sua vida.
Gosta de bexigas, sapo, Muppets, Azur e Azmar.
Pede pra ver Du na internet - vários vídeos do Aláfia nos Favoritos...
Dorme comigo, não chupa chupeta, bebe no copo sem canudinho ou bico.
É bem humorada mas muito séria.
Gosta de azul, amarelo (tipo música do Cartola)
Já caiu do berço, da escada, levou patada de cachorro, teve 3 conjutivites.
Bate a cabeça umas 15 vezes ao dia, tem as pernas cheias de hematomas,
cai e diz: "opa, caiu!".
Se diverte em me chamar de Cris.
Chega em casa, tira o sapato e guarda num canto do quarto.
Me ajuda a guardar os brinquedos,
pede pra escovar os dentes,
quer subir sozinha a escada do prédio.
Adora ficar na "casa da bisa" entre erês e orixás.
Sem medo de caboclo, come com as mãos e sempre quer usar sua saia.
É a melhor pessoa do mundo,
a dádiva mais graciosa que eu poderia receber.
Minha vida não acabou quando engravidei, como predisseram os ressentidos
Minha vida mudou do jeito mais intenso que poderia acontecer.
Não lamento nada, não mudaria nada.
Reviveria tudo com menos ênfase na covardia alheia.
Há 2 anos ela chegava no mundão, com olhos vivos, sorrindo já em sua primeira noite.
Hoje ela faz 2 anos, cresceu muito, é muito grande com seus quase 12kg,
se diz forte.
2 anos de Dorah Madiba, os 2 melhores anos de minha vida.




quinta-feira, 2 de agosto de 2012

"Saber a hora de parar é pra homem sábio"

Semana Mundial de Amamentação... algo que deveria ser tão básico, uma vez que somos mamíferos, encontra resistência em nossa sociedade, a ponto de ser preciso "politizar" o momento, institucionalizá-lo, para garantir a reflexão e o direito da mãe e da criança.

Discorrer sobre isto? não, não quero... Apenas digo que não dei ouvidos às inúmeras sugestões de complemento e não parei de amamentar quando me pressionaram ou desestimularam.
Vivi muita coisa louca para conseguir amamentar. Quero relembrar esta história.
O primeiro obstáculo: meu horror à leite. Eu recusei leite a vida inteira e assim tem sido até hoje. Fermentado, em iogurte e queijos, vai bem, mas no copo, seja leite humano, de vaca, de cabra, de elefante, não importa, não quero ver, tocar ou sentir o cheiro.
O obstáculo seguinte: não tive orientação sobre como amamentar. Meu peito rachou, sangrou, criou casca. Cilene, uma amiga abençoada, me presenteou com Lansinoh (acho que é este o nome da pomada) mas não foi miraculosa comigo, o peito seguia muito ferido.
Os conselhos de Adriana Guimarães e de uma lista virtual de apoio à amamentação, me tiraram desta encurralada - passar o próprio leite nos mamilos, expôr ao sol.
Aaaahh!! mas Dorah Madiba nasceu num dos dias mais frios de 2010 - me disseram que foi o mais frio! Logo, nada de sol por estas bandas... aí volta Adriana, que me ensinou a usar a lâmpada de abajour. 20 dias depois, o peito tava novo.
Bom, em meio a isto tudo, muita sede, má alimentação numa época crucial, um cansaço tremendo, os hormônios loucos... a criança no peito várias vezes ao dia, 40 minutos de cada lado.
Mamava.
Regurgitava.
Poças de leite regurgitado em toda a casa!
Algumas almas solidárias fizeram esta faxina, algumas vezes.
1o mês - um excelente ganho de peso.
2o mês - ganhou pouco peso
3o mês.. hum, talvez precise de complemento.
um exame de sangue aqui, um nada de anormal ali...
A lista virtual me ensinando, me fortalecendo e eu resistindo: SEM COMPLEMENTO. "O leite que ela vai tomar é o que eu fabrico."
4o mês, o pediatra questiona minha mãe: "Cris era ruim de ganhar peso?" SIM!!! ATÉ HOJE!!! pronto, fim da história do complemento.
4o mês veio outra novela: retorno ao trabalho: bomba de tirar leite, armazenar leite, congelar leite e CONVENCER o adulto cuidador a oferecer leite num copo. Teimaram, brigaram, discutiram. Fiquei sozinha, teimando mais ainda. A nega do ziriguidum, um dia, toma da minha mão uma caneca de chá e vira na boca. Ofereço o leite na xícara e assim foi... mas o cuidador precisava de mamadeira. Nova dica de Adriana Guimarães e, na lista, consegui uma mamadeira que já não era mais fabricada mas que atendia as necessidades: formato do bico do peito e era uma mamadeira...
alguns stress e peito sem leite, má alimentação e peito com pouco leite.. tudo rolou... nunca pensei em desistir... o objetivo era amamentar até os 2 anos e, se ela quisesse mais, quando chegasse a 2, reveríamos.
5o mês: creche. Lá vai a tal mamadeira almodovariana, meu leite congelado e Aptamil de soja.
6o mês - igual, entrou o suco.
Tirar o leite era uma coisa de louco... o ideal pouco aconteceu, fiz o que deu.. o peito doía, cheio de leite, endurecia, minha coluna gelava... tudo o que eu queria era grudar minha filha no peito e dizer: ESVAZIE OS DOIS!! enfim, vida medíocre, ops, moderna! E assim findamos a amamentação exclusiva..
Dormíamos na mesma cama. As noites passaram a ser uma loucura... era o momento em que estávamos juntas e ela grudava no meu peito. Dormia. Acordava. Chorava. Grudava de novo... mais de saudade do que fome. Passamos 2 meses assim. "quizá ela dormisse melhor no berço?" funcionou. Desde os 9 meses dorme no berço dela, sem que eu tenha que criar estratégias mirabolantes para que ela dormisse.
A partir daí não contei...
Na Bienal
Amamentei no metrô, na lotação, no trem... sem capa de amamentação, sem fraldinha na cara da criança...
amamentei indo, vindo, dormindo. Amamentei em shows, na casa de amigas, no museu, na Bienal. Amamentei em todos os cantos em que estivemos. O peito era dela.
Escutei piadas, comentários toscos, recebi olhares maliciosos, reprovadores.. vixi.. tudo o que poderia rolar, rolou.
Daí ela começa a falar: "pe", pedindo peito. Não chamo meu peito de "tetê, mamá" ou sei lá o quê. Peito é peito.
Aprimorou a fala: "peito!"
Também aprendeu a puxar minha blusa pedindo peito. Estimulei a dizer o que quer e não tomar de assalto. "O peito é meu e eu te dou".
Pedia peito sempre que entrávamos na lotação.
Pedia peito várias vezes.
Passou a pedir o outro.
Passou a pedir dia sim, dia não...
ops, 2 dias sem pedir peito?
lá vem ela grudando de novo...
e neste vai-e-vem fomos até 8 de julho de 2012.
Na companhia do Caos do Subúrbio, desfrutando duma janta deliciosa na casa de D. Odete, ela pegou meu peito pela última vez.
Eu não sabia que era a última vez... mas sabia que poderia ser.
E foi.
Já tomei vinho
Já passei hidratante.
Já usei cacharrel.
Com Ariane e Pietro

Hoje ela tomou uma patada do Cheik. Tava sentida... e como eu quis colocá-la no meu peito pra acalmá-la... mas acabou... "saber parar é pra homem sábio" -rapeia Criolo em Sucrilhos - mas minha criança, minha filha linda, já tem sua sabedoria. Mudamos a fase... tenho peito, tenho colo, tenho uma cama... e hoje ela dormirá comigo, com curativo no lábio e dormirá sempre que quiser... ela é minha, eu sou dela... logo mais ela será do mundão e eu sempre vou sentir saudade da sensação fantástica que foi amamentá-la por 1ano, 10 meses e 21 dias.
Natal
Com Fator do E.G.






sexta-feira, 20 de julho de 2012

Tem mais é que denegrir, sim!!

Faz tempo que quero desenrrolar esta ideia... sobre o uso de palavras pejorativas no nosso rap.

Há uma semana ouvi um  MC novo cantar algo do tipo: "sou a ovelha negra da família", no sentido mais senso comum (e negativo) possível.
Quase tive um troço na plateia!

Há quase um ano vi um outro grupo, de jovens, bastante promissor,  usar "denegrir" também no sentido negativo.

Minha dúvida, nas duas situações é: essa turma não escutou nada?? não leu nada? não aprendeu com os mais velhos?
O rap/ hip hop tem ensinado o quê, pra nossos jovens?
Penso ainda: onde foi que nos perdemos???

A FNMHH (Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop) promove encontros para formação de jovens mulheres em questões ligadas ao Hip Hop e à negritude. O Hip Hop Mulher também promove encontros com trocas de ideias e fortalecimento da rede de rapeiras e mulheres ligadas ao hip hop. São duas ocasiões em que há trocas intensas sobre técnicas e conhecimento dos 5 elementos de nossa cultura.

Porém, no cotidiano, a gente não troca mais textos, não recomendamos: "leia isto, é muito foda!" E na sequência vem um livro do Abdias do Nascimento, da Cidinha da Silva ou de Carolina Maria de Jesus. Não estamos lendo, não estamos nos formando? não estamos buscando literatura e história, a oficial ou a nossa, reescrita por tantos pesquisadores que estão do nosso lado?

Eu tenho minha petulância.. tô envolvida nisto, há 10 anos e tem muita coisa clássica do rap nacional que não escutei. Sei que tenho dever de casa a fazer. Sei que se eu envolver os DJs nesta conversa, eles vão apontar músicas que falam de questões raciais, discutem o tema mesmo.. GOG, RZO, Potencial 3, Eli Efi e DMN. Tem conhecimento produzido pra todo lado!

Não escutei as músicas mas li: Luiz Gama, a história de João Cândido, de Ruth de Souza, Malcom X, Steve Biko, Nélson Mandela. Conheço a importância de Heitor dos Prazeres, de Abdias, de Elisa Larkin, de Cuti, Allan da Rosa, Cidinha da Silva... tem um monte de gente discutindo questões raciais. Como alguém pode entrar no meio de uma história que já tem 2 décadas e desconsiderar o ensinamento dos mais antigos?

Ou, cadê os mais velhos pra ensinar pros mais novos? Há pouco mais de um ano, num encontro na casa do Hip Hop, pude ouvir Nélson Triunfo contando história, provocando reflexões e defendendo nossa cultura. Nino Brown faz isto todo o tempo! É um comprometimento que vai além de gravar CD, fazer video clipe ou  "pegar as mina".

Tô feliz em ver o clipe Edi Rock, com participação do Seu Jorge, contando de maneira tão poética, uma história muito triste e ainda real. http://www.youtube.com/watch?v=ysfm_adxRrI mostrando o mesmo comprometimento de sempre, na mesma envergadura, com maturidade e beleza.

Fico feliz em ver os Racionais numa onda black panther, contando a história de Carlos Mariguella.. http://mtv.uol.com.br/musica/assista-a-marighella-o-novo-clipe-do-racionais-mcs

Caos do Subúrbio é outro grupo que tem trazido a valorização da cultura negra http://www.youtube.com/watch?v=jFhRM6cXCYg
http://www.youtube.com/watch?v=x6X2v5ckpPA&list=HL1342484939&feature=mh_lolz

Capulanas, também dando sua contribuição... http://g1.globo.com/videos/sao-paulo/sptv-1edicao/t/edicoes/v/eletropaulo-faz-blitz-sobre-os-cuidados-que-criancas-devem-ter-com-pipas/2040913/

Poxa, tem muita fonte pra beber, tá aí.. é só estudar, ter humildade, determinação e comprometimento. Valorizar à negritude vai além de batizarmos nossos filhos com nomes africanos, tem que ter respeito pelo que já foi construído e contribuir à partir daí.. penso que temos mais é que denegrir esta cidade, africanizar esta cidade, este país... mas fazer isto com reconhecimento e positividade.
Enfim, é o que penso.


sábado, 14 de julho de 2012

Cenas

Domingo me disseram: "uma mulher que é mãe não é apenas uma mulher."
No momento em que Dorah nasceu, o mundo me pareceu ganhar uma lente, com mais nitidez na imagem e mais vivacidade nas cores. Me perguntei, "como pude 'não enxergar' por tanto tempo'?
A situação se complexificou ao mesmo tempo em que trouxe singelices no cotidiano.
Ainda me encanto com a intensidade de versos de Fernando Pessoa, ainda me vejo ali mas fui mais além.
Fui a um lugar em que ele não esteve.
Um caminho trilhado por algumas mulheres.
Descobri-me.
Reinventei-me
Estou
Sou
O que me doía antes, atualmente, é como um grão de areia.
Só preciso de silêncio.
Silêncio para deixar meu coração bater, sem que eu mesma precise escutar os pensamentos que lá estão.
Para que o vento os levem, os espalhem, como pólen.
Preciso olhar minha preta comendo, correndo pela casa, batendo a cabeça na quina da mesa, sambando em frente ao espelho.
Escutá-la dizer: "opa!" "umguigo" ou cantarolar Carmen.
Não sei ouvi-la dizer "dodói", sem ficar de coração partido - que mãe sabe?
Não sei ouvi-la chorar e ficar indiferente.
Tô aprendendo que ela não pede meu peito. O leite que veio com ela, que era dela, já não lhe apetece.
Com isto vem a vontade de beber uma taça de vinho ou trago de rum, fumar um Popular, sentir a brisa fria no rosto, o calor do corpo adulto...
tudo igual ao que já foi um dia?
Não, porque não sou apenas uma mulher.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Processos

Enquanto Dorah vive os processos de crescimento, eu vivo um processo de transição de personas de "mãe trabalhadora" para "mãe-mulher-trabalhadora".
Não é tão simples e, quanto todos os outros vividos até agora, penso que rola rápido demais! Mas tô nele. Vivi o coaching pra mulheres que me deu um varal de temas pra pensar. Conheci mulheres fantásticas e me dei conta de que é possível equilibrar os vários eus que há em mim, mesmo não me chamando Fernando Pessoa.
Depois do coaching veio uma aproximação linda com uma ekede de Nanã. Outra nação, desejos semelhantes e que também vive um processo de transmutação intenso. Tem sido um presente estar com esta mãezinha. Ela vai tocando um adjá invisível que tem me colocado em movimento. Ela também é a responsável pelas ondas em meus cabelos. Brincou com a tesoura e trouxe leveza para minhas madeixas.
Parte de mim, ainda não está habituada com este cabelo por outro lado, sei lá, parece que é mais um pedra na pavimentação deste caminho.
Aliás, este caminho tem outras tantas reflexões... tem gente chegando e uma porção saindo... este é outro movimento que também assisto e me espanto com a velocidade estabelecida. Se fosse do meu gosto, tudo poderia caminhar com uma redução de 20% no ritmo.
Ainda tem gente sorpresa que não sabe o que esperar de mim agora, que tudo tá assim... não acho ruim, não... só não tô com ânimo pra esperar pela coragem alheia.
Também não sei bem como o que tem aqui guardado primaverá, não faço ideia... tenho uma certa curiosidade mas, de novo, sem ansiedade pra não contribuir com o ritmo já acelerado.
No mais, acho que a vida tá aí, assim.. Dorah Madiba anda e fala, tá desmamando e desfraldando. Os processos dela são mais fáceis de nomear. Enquanto ela trilha o caminho dela, o meu vai se revelando, um novo, seletivo, refletido caminho. Todo o resto vivido também foi refletido porém com outra profundidade. Não faria nada diferente. Tenho Dorah só pra mim, o presente é inteiramente meu e isto tem sido cada vez mais esplendoroso.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Ressabiada. É assim que estou.
Ansiosa por crer mas,
tantas foram minhas crenças desfeitas
que penso ser estupidez acreditar de novo.

às vezes o instinto grita
por calor, por aconchego.

às vezes a solidão fica na espreita,
esperando a lágrima rolar.
Não chegou o calor, não veio a lágrima.


Meu ressabio é com os homens.
Mentem com tanta facilidade?
Omitem sem pudor?
Num vai-e-vem de não lugares
que não parece ter fim, eles transitam.

Querem que eu grite?
que eu esperneie?
que eu me renda?
não sei o que querem.

Há pouco vislumbrei um caminho
a princípio, parece que mereço trilhá-lo.
Enquanto me convenço,
contemplo o cotidiano com seu tom cinza
chamuscado de colorido.

É assim pra mim e deve ser parecido pra um montão de gente.




segunda-feira, 21 de maio de 2012

Cansaços e partidas

"Estou farto do lirismo comedido 
Do lirismo bem comportado 
Do lirismo funcionário público com livro de ponto espediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. 

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. 

Abaixo os puristas. 
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais 
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção 
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis 

Estou farto do lirismo namorador 
Político 
Raquítico 
Sifilítico 
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo. 

De resto não é lirismo 
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar &agraves mulheres, etc. 

Quero antes o lirismo dos loucos 
O lirismo dos bêbados 
O lirismo difícil e pungente dos bêbados 
O lirismo dos clowns de Shakespeare. 

- Não quero saber do lirismo que não é libertação."
Manuel Bandeira

Não sou de recorrer a poemas... mas estou farta de tantas coisas...
Cansada da covardia das pessoas que se escondem atrás de sexo, álcool ou drogas.
A covardia que faz com que um homem não seja pai, não seja parceiro/ companheiro ou minimamente leal.
Da covardia de mulheres que escondem sua insegurança sob a máscara do ciúme, como se ele fosse prova de amor.
Tô de saco cheio das fronteiras que o tempo todo devem ser transpostas... 
De TER que atender a expectativa alheia... o outro idealiza algo sobre mim e eu tenho que atender?? Sem chance! mal dou conta de atender minhas próprias expectativas!
Tô cansada do movimento contemporâneo em que as pessoas buscam sanar sua dor, causando dor a outro fazendo uso egocêntrico do desejo sensual.

Estamos em tempos de miséria da alma. Sou um ser em transformação, às vezes relutante mas, espero mas não reconheço em mim ter banalizado a dor ou afeto alheio, especialmente de alguém com quem me importo. Sexo não sobressai a amizade.
A miséria está em todos os lugares! Cada reportagem que leio e tantas outras inúteis que estão por aí! A roupa desta, a falta de roupa daquela, aquela que amamenta, aquela que foi traída... aquele que bebeu, aquele que matou, aquele que traiu, aquele que falou palavrão... aaaffff Onde estão as notícias sobre grandes feitos ou boas reflexões? onde estão os momentos de coragem cotidianos? amassados no transporte público, escravo da merreca mensal e das dívidas nas gavetas, a gente sobrevive no sentido letárgico da coisa.

E, no meio da bagunça da pauliceia, recebo a notícia de que minha avó partiu... Adiei tantas vezes vê-la, envolvida no ritmo do cotidiano, perdi a possibilidade de um espelho silencioso. 
Lembro de minha avó com sues vestidos estampados, lenços na cabeça, com uma rudia na cabeça, batendo um super papo animado... casada com um homem mais jovem (herdei daí esta predileção?), minha avó tinha peculiaridades ímpares.
Mais uma vez, uma biblioteca que se foi.... esta, muito significativa, carregou consigo uma história que conheço poucas linhas. A distância geográfica, a péssima integração do interior do Brasil faz com que seja mais fácil ir para a Pequim do que a Condeúba. Terra que guarda o sabor da brevidade, do umbu e do requeijão. 




terça-feira, 1 de maio de 2012

Me bateu uma saudade de Mario Cravo Neto... 
de gente arrojada,
que vê o mundo de uma maneira menos cartesiana,
mais arrojada.
Exibe o mundo em preto e branco porém
 a ausência de colorido 
não empobrece o olhar.


domingo, 4 de março de 2012

4 de março russo

Que vontade de gritar!!!!
É dia de eleição na Rússia! E, de novo, o ocidente não entende patavinas do que tá rolando lá!
Desde que um amigo de Guiné-Bissau, estudante da Universidade Russa da Amizade dos Povos, outrora a Universidade Patrice Lumumba, foi agredido por jovens nacionalistas nas ruas da minha amada Moscou, eu decidi me manter longe da Rússia.
Evitei falar, escrever, ler... evitei tudo. Grávida ganhei uma garrafa de vodka de São Petesburgo e ela ainda está na casa dos meus pais. Mas ontem não resisti.. fui espiar as notícias sobre as eleições de hoje.
Nada mudou, os jornais e os analistas ocidentais seguem olhando a Rússia com olhos ocidentais e, portanto, sem conhecer ou entender patavinas do que rola lá.. Ontem senti um ódio mortal de mim.. eu deveria ter continuado as aulas de russo e insistido em estudar Russia na universidade porque não encontro um nada que me agrade.
Esta mania ocidental de relativizar liberdade (na Tunísia pode, na Palestina, não; ou ainda, não aceitar que iraquianos elegeram Saddam Houssein e o matam em épocas de festividades no Ocidente)  não ajuda a entender e respeitar que liberdade pra um, não é liberdade pra outro.
Os russos não estão interessados nesta liberdade ocidental... ai.. lembro das aulas do Gabriel Cohn e me sinto no dever de discorrer sobre isto mas não tenho um nada de condições de fazê-lo porque estou em sobressaltos. Mas o farei, quando terminar esta coisa do Putin de volta ao Kremlin (ops! quando ele saiu?)
É isto... "Ocidente, pra párar de me atacar vc quer eleições?" então toma. E elas vieram... Sempre foram bizarras... Boris Ieltsin, que Deus o mantenha lá onde ele está, dançou rock and roll, pra atrair o eleitorado jovem... ah.. porque ainda tem este pequeno detalhe: eleições não são obrigatórias.
Algum jornal falou em "nova perestroika". Eu AMO Gorbachov mas eu sei que os russos jamais permitirão uma nova perestroika. Eles tem horror ao Gorb, debocham dele e o consideram um "vendido ao ocidente".
Russos aprovam a política de Putin que inclui discriminação ao estrangeiro, violência, brutalidade, força no patriarcado, hostilidades à política estadunidense e tantas outras coisas...
Os russos são debochados demais, fazem piada de muita coisa, não se chocam se ligam a tv e a "moça do tempo" está com os seios de fora. Aquelas pegadinhas com mulheres semi-nuas são o maior sucesso por lá... Quem tá achando que russo vive de ler Crime e Castigo e ir os balés no Bolshoi está sonhando a URSS - que nem era bem assim...
Meu objetivo não é traduzir o povo russo mas fico irritada com este olhar "ocidental-centrista" em cima da Rússia.
É dia de eleição e isto ainda mexe comigo... Há algo naquele lugar que mexe comigo.. não quero ir lá conferir, vou me decepcionar, eu sei... o que eles andam fazendo (toda a corrupção, a relação próxima entre a Máfia, o Estado, a imprensa), as ostentações, a hostilidade a estrangeiros.. nada disto me agrada.
Putin no poder por mais um ou dois mandatos (eu acredito que ele terá dois mandatos, não há um candidato opositor que possa encará-lo.. Jirinovsky é uma piada e Zyuganov é saudosista. Cara, não vai rolar... Putin por lá e eu não conhecerei a Praça Vermelha, não vou me mobilizar pra fazer a transiberiana, entrar na Basílica de São Basílio, comprar um gorro no Gum... A Rússia dos meus sonhos tem Gorbachov, tem uma simpatia pelo estrangeiro... esta Rússia não existe mais.
Eles querem o melhor do ocidente (consumo) com o melhor da velha tradição czarista: pulso firme e nacionalismo, além de sonharem ser potência respeitada e temida pelos outros países. Putin representa isto.

Este link traz um vídeo com uma propaganda pró-Putin. A imagem dele aparece pouco mas é tão emblemática que não precisa de mais nada... Se alguém estiver aberto a espiar o russo à moda deles, verá que faz sentido pra eles... Uma campanha como esta, mostrando Serra, sendo recomendado pela cartomante, é piada...

e tem o lance da traição.. ai minha mameta... verdade, Putin não trairá a Rússia... quem entender o que isto significa, entenderá as escolhas do povo russo. É o que penso.

http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2012/03/04/putin-usa-videos-de-cunho-erotico-para-atrair-jovens-mas-evita-debates-com-oponentes.htm

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

De viços e vigor, quem tem o quê?

Ariane Neves


Não vejo com bons olhos o encontro entre um homem mais velho e uma mulher mais jovem. Já as variações disto, são mais palatáveis e até desejáveis às vezes...
Um homem de 30 anos, ou quase isto, com uma "mulher" de 17? O que ele tem a oferecer? Talvez minha questão esteja aí... mas como estou pensando nisto há horas, estou me adiantando.
Uma mulher de 20 e alguns anos está desabrochando. É flor nova, de pouco espinho, tão encantada pelo amanhecer quanto pelo pôr-do-sol. Acredita na paixão, no amor, no trabalho, na leitura, na arte... ou em nada disto, mas sempre terá um leque que vai além dos "amigos, a música e o esporte de sofá".
Mas se é um cara estudado, intelectualizado e ele está com esta mina de 20 e poucos? O que ele tem a oferecer? Estabilidade? Será
Sei que ele tentará subtrair o frescor desta flor, trará dor, lágrimas, esperanças que vão dobrar a esquina e se perderão na multidão. Ele planta o sonho de família feliz, filhos e tal mas não olha nada além da flor desabrochando. Não percebe o perfume, a cor, a textura.
Não a alimenta, não a encanta, não canta, não mima, não nina.
Pode ser que, esporadicamente, ele faça uma coisa ou outra. E ela, esta flor que tão pouco conhece do mundo, sente-se satisfeita com aquela ninharia de cuidado.
Mas sempre terá um pra dizer que ela sabe o que quer. Sim, ela sabe. Ela viu um sei-lá-o-quê no fulano, quase sempre o potencial para ser algo e já que tem alguma caminhada então ele está mais perto de ser uma realização. Quem não sabe é o cara.
O que caras de 25 querem com meninas de 16?
O fetiche de ser o primeiro ou de ser o cara que "a fez mulher"? Querem apoiá-las a estudarem, se formarem, estabelecerem uma profissão, viajar, conhecer o mundo, fazer amizades, aprender a dançar samba rock ou merengue? este cara vai estimulá-la a fazer aula de canto, de fotografia? vai acampar com ela e tomar banho de cachoeira no outono sudestino?
Como eu estou certa de que há poucos homens no mundo que realmente gostam de mulher, pouco provável que este cara hipotético vá fazer alguma mulher, mulher.
Tornar-se mulher não é tornar-se esposa ou mãe. Ser mãe pode aprimorar a mulher mas isto não a faz, não a define.
No meu ponto de vista, estes homens são fracos, se aproximam de jovens mulheres e elas, geralmente, são uma força bruta acumulada numa inocência idílica.
Guerreiras de natureza ou pela caminhada, são extremamente fortes - daí o argumento: "ela é jovem mas é madura".
Não, meu caro senhor, não dá pra acumular uma bagagem de 35 anos num corpo de 22 anos sem que este processo seja doloroso e rapino. As mulheres que tem este histórico carregam marcas no corpo e na alma. Estas, estes homens não desejam.
Desejam a juventude de uma mulher e não sua multiplicidade.
Desejam sugar, vampirizar o viço, a alegria, o encanto... como se fosse possível, ao embebedar-se desta mulher, revigorar-se.
Um homem mais velho, sempre temi, viria com o discurso do "eu já vivi, eu sei o que estou falando" e, somado à posição confortável que muitos homens desfrutam na sociedade apenas por serem homens, supostamente encontrariam menos resistência, podendo ditar o rumo da relação.
Daí o tempo passa, a mulher de quase 20, 20 e poucos tem 20 e todos, 30 e alguns e ele quer recomeçar esta caça em busca da flor viçosa porque daquela, ele acredita já ter tirado todo o néctar.
Não sabe que o melhor está por vir. Virá pelas mãos de habilidoso jardineiro, amante ou não, mas serão mãos de afago, de poda, de ternura.
O caminho trilhado será o de fortalecimento de uma mulher que já tem o DNA de guerreira, ela vai se encantar por si, pela literatura, pela arte, pela música. Vai permanecer de pé, escondendo as feridas, as desilusões, as marcas de guerra e buscando acreditar que a próxima paixão será a paixão que ela merece viver.
Com tanto obstáculo e desilusão, não desistem do amor, da paixão, do tesão...
ainda que busquem tudo isto de um jeito torpe, descompensado.
Todo mundo quer um parceiro que seja companheiro, tipo 'A dama e o vagabundo'. A minha versão disto não envolve macarrão mas livros e música.
Cheguei aos 30 e vários e já não sou alvo destes vilões de viço - o que mais temia. Mas não deixo de compadecer quando vejo um cara de quase 30 rondando uma moça que não tem 20 ou um cara de mais de 30 estilhaçando uma dourada de 20 e poucos.O que estes caras tem de bagagem para oferecer? Um conteúdo que trará a esta mulher dor, tristeza, solidão, mentiras. É o que vi, na maioria das histórias. Se há exceções, como a palavra diz, são exceções.

sábado, 11 de fevereiro de 2012


Tempo... sempre ele...
se você fica parado, ele te alcança; se você corre atrás, ele nunca se deixa controlar.
O tempo por aqui trouxe de tudo: mudanças, sacudidelas, novos desafios, mudança de parâmetros - parecem sinônimos, nas não são. Cada situação vivida traz um desfecho.
A reaparição do pai de Dorah foi uma ventania, ameaçando tirar tudo do lugar, trazendo questões dele muito desagradáveis, com as quais eu jamais imaginei que fosse precisar lidar. Aline, Irma e Nara foram fundamentais para as águas correrem tranquilas sob este vendaval. Participações especiais de Fator do E.G. e Waldemir Rosa!

A ventania resultou em ser apenas uma brisa... dentro de mim, ventou firme e forte mas, ele continua "mais do mesmo". Serviu pra eu encontrar um grupo de pessoas com histórias infinitamente mais desafiadoras, para eu me jogar na vida, voltar a andar correndo riscos e rever o lugar dele em nossas vidas.

O fim de um contrato de trabalho trouxe uma maior definição de quem sou e do que quero no âmbito profissional. Encarei minhas expectativas e decepções. Arriscado mas estou aprendendo com isto também.

As novas possibilidades de trabalho são desafiadoras - em vários aspectos - porém, o mais importante é que podem trazer resultados significativos para mim e para os que estarão envolvidos.

O hip hop... ah... esta entidade em minha vida é realmente marcante... estou pensando e repensando tantos aspectos... estou feliz por ter Fator do E.G. animado pela cena. Ele insiste num movimento de me puxar pela barra da saia e eu, de olho nos "enta", quero encontrar um lugar pra esta entidade em minha vida. Ele, mais perto dos "enta" do que eu, vê tudo com olhos de menino. Empolgado, tá trazendo DJ Damente e eu tô bem feliz com isto.. este encontro entre duas pessoas muito sérias e muito comprometidas com a cultura hip hop só pode trazer crescimento. Veremos se o tempo, a tal entidade melindrosa, agirá com generosidade. DJ Damente faz juz ao vulgo, ele consegue dar um nó no meu pensamento e colocar mais desafios mentais pra mim - gosto desta parte também. Muita reflexão e uma atitude do tipo "se joga" terá que ser creditada a ele. Sou grata. Ainda o hip hop dentro da minha casa... e Oxum sabe como eu tento não me envolver tanto com algo tão complexo!

E tem minha flor do cerrado, paulistana da zona leste, Dorah Madiba. Às vésperas de fazer 18 meses, ela segura a colher, faz uma bagunça com a comida, sobe na cama ou no sofá - testando suas habilidades de alpinistas. Fala várias palavras... a mais recente é "sai" mas já temos mamãe, vovó, vovô, titi, cadê, pão, alô, papai... e alguns sons para outras palavras: tata, para tartaruga, papa, para papagaio, algum som pra dizer que quer assistir TV ou video na internet (Muppets, por exemplo, garante a paz na hora de cortar as unhas), Também tem "me" para comer e "me" para meu. Haja percepção pra diferenciar uma palavra da outra.

Posso não estar estudando formalmente, lendo 5 páginas de Mia Couto (Antes do nascer do Mundo) por dia mas, o aprendizado é constante.
SE o vento permitir, amanhã Dorah encontrará a irmã, de 3anos e 7 meses. Algo deles, eu não faço parte disto e, mais uma vez, novos desafios e aprendizados melhor encarados com o apoio e cuidado de Aline e Fator do E.G.

Muita coisa, muito vento soprando aqui, muita água rolando e, ainda assim, estou confiante na vida.