quinta-feira, 21 de junho de 2012

Ressabiada. É assim que estou.
Ansiosa por crer mas,
tantas foram minhas crenças desfeitas
que penso ser estupidez acreditar de novo.

às vezes o instinto grita
por calor, por aconchego.

às vezes a solidão fica na espreita,
esperando a lágrima rolar.
Não chegou o calor, não veio a lágrima.


Meu ressabio é com os homens.
Mentem com tanta facilidade?
Omitem sem pudor?
Num vai-e-vem de não lugares
que não parece ter fim, eles transitam.

Querem que eu grite?
que eu esperneie?
que eu me renda?
não sei o que querem.

Há pouco vislumbrei um caminho
a princípio, parece que mereço trilhá-lo.
Enquanto me convenço,
contemplo o cotidiano com seu tom cinza
chamuscado de colorido.

É assim pra mim e deve ser parecido pra um montão de gente.




segunda-feira, 21 de maio de 2012

Cansaços e partidas

"Estou farto do lirismo comedido 
Do lirismo bem comportado 
Do lirismo funcionário público com livro de ponto espediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. 

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. 

Abaixo os puristas. 
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais 
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção 
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis 

Estou farto do lirismo namorador 
Político 
Raquítico 
Sifilítico 
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo. 

De resto não é lirismo 
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar &agraves mulheres, etc. 

Quero antes o lirismo dos loucos 
O lirismo dos bêbados 
O lirismo difícil e pungente dos bêbados 
O lirismo dos clowns de Shakespeare. 

- Não quero saber do lirismo que não é libertação."
Manuel Bandeira

Não sou de recorrer a poemas... mas estou farta de tantas coisas...
Cansada da covardia das pessoas que se escondem atrás de sexo, álcool ou drogas.
A covardia que faz com que um homem não seja pai, não seja parceiro/ companheiro ou minimamente leal.
Da covardia de mulheres que escondem sua insegurança sob a máscara do ciúme, como se ele fosse prova de amor.
Tô de saco cheio das fronteiras que o tempo todo devem ser transpostas... 
De TER que atender a expectativa alheia... o outro idealiza algo sobre mim e eu tenho que atender?? Sem chance! mal dou conta de atender minhas próprias expectativas!
Tô cansada do movimento contemporâneo em que as pessoas buscam sanar sua dor, causando dor a outro fazendo uso egocêntrico do desejo sensual.

Estamos em tempos de miséria da alma. Sou um ser em transformação, às vezes relutante mas, espero mas não reconheço em mim ter banalizado a dor ou afeto alheio, especialmente de alguém com quem me importo. Sexo não sobressai a amizade.
A miséria está em todos os lugares! Cada reportagem que leio e tantas outras inúteis que estão por aí! A roupa desta, a falta de roupa daquela, aquela que amamenta, aquela que foi traída... aquele que bebeu, aquele que matou, aquele que traiu, aquele que falou palavrão... aaaffff Onde estão as notícias sobre grandes feitos ou boas reflexões? onde estão os momentos de coragem cotidianos? amassados no transporte público, escravo da merreca mensal e das dívidas nas gavetas, a gente sobrevive no sentido letárgico da coisa.

E, no meio da bagunça da pauliceia, recebo a notícia de que minha avó partiu... Adiei tantas vezes vê-la, envolvida no ritmo do cotidiano, perdi a possibilidade de um espelho silencioso. 
Lembro de minha avó com sues vestidos estampados, lenços na cabeça, com uma rudia na cabeça, batendo um super papo animado... casada com um homem mais jovem (herdei daí esta predileção?), minha avó tinha peculiaridades ímpares.
Mais uma vez, uma biblioteca que se foi.... esta, muito significativa, carregou consigo uma história que conheço poucas linhas. A distância geográfica, a péssima integração do interior do Brasil faz com que seja mais fácil ir para a Pequim do que a Condeúba. Terra que guarda o sabor da brevidade, do umbu e do requeijão. 




terça-feira, 1 de maio de 2012

Me bateu uma saudade de Mario Cravo Neto... 
de gente arrojada,
que vê o mundo de uma maneira menos cartesiana,
mais arrojada.
Exibe o mundo em preto e branco porém
 a ausência de colorido 
não empobrece o olhar.


domingo, 4 de março de 2012

4 de março russo

Que vontade de gritar!!!!
É dia de eleição na Rússia! E, de novo, o ocidente não entende patavinas do que tá rolando lá!
Desde que um amigo de Guiné-Bissau, estudante da Universidade Russa da Amizade dos Povos, outrora a Universidade Patrice Lumumba, foi agredido por jovens nacionalistas nas ruas da minha amada Moscou, eu decidi me manter longe da Rússia.
Evitei falar, escrever, ler... evitei tudo. Grávida ganhei uma garrafa de vodka de São Petesburgo e ela ainda está na casa dos meus pais. Mas ontem não resisti.. fui espiar as notícias sobre as eleições de hoje.
Nada mudou, os jornais e os analistas ocidentais seguem olhando a Rússia com olhos ocidentais e, portanto, sem conhecer ou entender patavinas do que rola lá.. Ontem senti um ódio mortal de mim.. eu deveria ter continuado as aulas de russo e insistido em estudar Russia na universidade porque não encontro um nada que me agrade.
Esta mania ocidental de relativizar liberdade (na Tunísia pode, na Palestina, não; ou ainda, não aceitar que iraquianos elegeram Saddam Houssein e o matam em épocas de festividades no Ocidente)  não ajuda a entender e respeitar que liberdade pra um, não é liberdade pra outro.
Os russos não estão interessados nesta liberdade ocidental... ai.. lembro das aulas do Gabriel Cohn e me sinto no dever de discorrer sobre isto mas não tenho um nada de condições de fazê-lo porque estou em sobressaltos. Mas o farei, quando terminar esta coisa do Putin de volta ao Kremlin (ops! quando ele saiu?)
É isto... "Ocidente, pra párar de me atacar vc quer eleições?" então toma. E elas vieram... Sempre foram bizarras... Boris Ieltsin, que Deus o mantenha lá onde ele está, dançou rock and roll, pra atrair o eleitorado jovem... ah.. porque ainda tem este pequeno detalhe: eleições não são obrigatórias.
Algum jornal falou em "nova perestroika". Eu AMO Gorbachov mas eu sei que os russos jamais permitirão uma nova perestroika. Eles tem horror ao Gorb, debocham dele e o consideram um "vendido ao ocidente".
Russos aprovam a política de Putin que inclui discriminação ao estrangeiro, violência, brutalidade, força no patriarcado, hostilidades à política estadunidense e tantas outras coisas...
Os russos são debochados demais, fazem piada de muita coisa, não se chocam se ligam a tv e a "moça do tempo" está com os seios de fora. Aquelas pegadinhas com mulheres semi-nuas são o maior sucesso por lá... Quem tá achando que russo vive de ler Crime e Castigo e ir os balés no Bolshoi está sonhando a URSS - que nem era bem assim...
Meu objetivo não é traduzir o povo russo mas fico irritada com este olhar "ocidental-centrista" em cima da Rússia.
É dia de eleição e isto ainda mexe comigo... Há algo naquele lugar que mexe comigo.. não quero ir lá conferir, vou me decepcionar, eu sei... o que eles andam fazendo (toda a corrupção, a relação próxima entre a Máfia, o Estado, a imprensa), as ostentações, a hostilidade a estrangeiros.. nada disto me agrada.
Putin no poder por mais um ou dois mandatos (eu acredito que ele terá dois mandatos, não há um candidato opositor que possa encará-lo.. Jirinovsky é uma piada e Zyuganov é saudosista. Cara, não vai rolar... Putin por lá e eu não conhecerei a Praça Vermelha, não vou me mobilizar pra fazer a transiberiana, entrar na Basílica de São Basílio, comprar um gorro no Gum... A Rússia dos meus sonhos tem Gorbachov, tem uma simpatia pelo estrangeiro... esta Rússia não existe mais.
Eles querem o melhor do ocidente (consumo) com o melhor da velha tradição czarista: pulso firme e nacionalismo, além de sonharem ser potência respeitada e temida pelos outros países. Putin representa isto.

Este link traz um vídeo com uma propaganda pró-Putin. A imagem dele aparece pouco mas é tão emblemática que não precisa de mais nada... Se alguém estiver aberto a espiar o russo à moda deles, verá que faz sentido pra eles... Uma campanha como esta, mostrando Serra, sendo recomendado pela cartomante, é piada...

e tem o lance da traição.. ai minha mameta... verdade, Putin não trairá a Rússia... quem entender o que isto significa, entenderá as escolhas do povo russo. É o que penso.

http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2012/03/04/putin-usa-videos-de-cunho-erotico-para-atrair-jovens-mas-evita-debates-com-oponentes.htm

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

De viços e vigor, quem tem o quê?

Ariane Neves


Não vejo com bons olhos o encontro entre um homem mais velho e uma mulher mais jovem. Já as variações disto, são mais palatáveis e até desejáveis às vezes...
Um homem de 30 anos, ou quase isto, com uma "mulher" de 17? O que ele tem a oferecer? Talvez minha questão esteja aí... mas como estou pensando nisto há horas, estou me adiantando.
Uma mulher de 20 e alguns anos está desabrochando. É flor nova, de pouco espinho, tão encantada pelo amanhecer quanto pelo pôr-do-sol. Acredita na paixão, no amor, no trabalho, na leitura, na arte... ou em nada disto, mas sempre terá um leque que vai além dos "amigos, a música e o esporte de sofá".
Mas se é um cara estudado, intelectualizado e ele está com esta mina de 20 e poucos? O que ele tem a oferecer? Estabilidade? Será
Sei que ele tentará subtrair o frescor desta flor, trará dor, lágrimas, esperanças que vão dobrar a esquina e se perderão na multidão. Ele planta o sonho de família feliz, filhos e tal mas não olha nada além da flor desabrochando. Não percebe o perfume, a cor, a textura.
Não a alimenta, não a encanta, não canta, não mima, não nina.
Pode ser que, esporadicamente, ele faça uma coisa ou outra. E ela, esta flor que tão pouco conhece do mundo, sente-se satisfeita com aquela ninharia de cuidado.
Mas sempre terá um pra dizer que ela sabe o que quer. Sim, ela sabe. Ela viu um sei-lá-o-quê no fulano, quase sempre o potencial para ser algo e já que tem alguma caminhada então ele está mais perto de ser uma realização. Quem não sabe é o cara.
O que caras de 25 querem com meninas de 16?
O fetiche de ser o primeiro ou de ser o cara que "a fez mulher"? Querem apoiá-las a estudarem, se formarem, estabelecerem uma profissão, viajar, conhecer o mundo, fazer amizades, aprender a dançar samba rock ou merengue? este cara vai estimulá-la a fazer aula de canto, de fotografia? vai acampar com ela e tomar banho de cachoeira no outono sudestino?
Como eu estou certa de que há poucos homens no mundo que realmente gostam de mulher, pouco provável que este cara hipotético vá fazer alguma mulher, mulher.
Tornar-se mulher não é tornar-se esposa ou mãe. Ser mãe pode aprimorar a mulher mas isto não a faz, não a define.
No meu ponto de vista, estes homens são fracos, se aproximam de jovens mulheres e elas, geralmente, são uma força bruta acumulada numa inocência idílica.
Guerreiras de natureza ou pela caminhada, são extremamente fortes - daí o argumento: "ela é jovem mas é madura".
Não, meu caro senhor, não dá pra acumular uma bagagem de 35 anos num corpo de 22 anos sem que este processo seja doloroso e rapino. As mulheres que tem este histórico carregam marcas no corpo e na alma. Estas, estes homens não desejam.
Desejam a juventude de uma mulher e não sua multiplicidade.
Desejam sugar, vampirizar o viço, a alegria, o encanto... como se fosse possível, ao embebedar-se desta mulher, revigorar-se.
Um homem mais velho, sempre temi, viria com o discurso do "eu já vivi, eu sei o que estou falando" e, somado à posição confortável que muitos homens desfrutam na sociedade apenas por serem homens, supostamente encontrariam menos resistência, podendo ditar o rumo da relação.
Daí o tempo passa, a mulher de quase 20, 20 e poucos tem 20 e todos, 30 e alguns e ele quer recomeçar esta caça em busca da flor viçosa porque daquela, ele acredita já ter tirado todo o néctar.
Não sabe que o melhor está por vir. Virá pelas mãos de habilidoso jardineiro, amante ou não, mas serão mãos de afago, de poda, de ternura.
O caminho trilhado será o de fortalecimento de uma mulher que já tem o DNA de guerreira, ela vai se encantar por si, pela literatura, pela arte, pela música. Vai permanecer de pé, escondendo as feridas, as desilusões, as marcas de guerra e buscando acreditar que a próxima paixão será a paixão que ela merece viver.
Com tanto obstáculo e desilusão, não desistem do amor, da paixão, do tesão...
ainda que busquem tudo isto de um jeito torpe, descompensado.
Todo mundo quer um parceiro que seja companheiro, tipo 'A dama e o vagabundo'. A minha versão disto não envolve macarrão mas livros e música.
Cheguei aos 30 e vários e já não sou alvo destes vilões de viço - o que mais temia. Mas não deixo de compadecer quando vejo um cara de quase 30 rondando uma moça que não tem 20 ou um cara de mais de 30 estilhaçando uma dourada de 20 e poucos.O que estes caras tem de bagagem para oferecer? Um conteúdo que trará a esta mulher dor, tristeza, solidão, mentiras. É o que vi, na maioria das histórias. Se há exceções, como a palavra diz, são exceções.

sábado, 11 de fevereiro de 2012


Tempo... sempre ele...
se você fica parado, ele te alcança; se você corre atrás, ele nunca se deixa controlar.
O tempo por aqui trouxe de tudo: mudanças, sacudidelas, novos desafios, mudança de parâmetros - parecem sinônimos, nas não são. Cada situação vivida traz um desfecho.
A reaparição do pai de Dorah foi uma ventania, ameaçando tirar tudo do lugar, trazendo questões dele muito desagradáveis, com as quais eu jamais imaginei que fosse precisar lidar. Aline, Irma e Nara foram fundamentais para as águas correrem tranquilas sob este vendaval. Participações especiais de Fator do E.G. e Waldemir Rosa!

A ventania resultou em ser apenas uma brisa... dentro de mim, ventou firme e forte mas, ele continua "mais do mesmo". Serviu pra eu encontrar um grupo de pessoas com histórias infinitamente mais desafiadoras, para eu me jogar na vida, voltar a andar correndo riscos e rever o lugar dele em nossas vidas.

O fim de um contrato de trabalho trouxe uma maior definição de quem sou e do que quero no âmbito profissional. Encarei minhas expectativas e decepções. Arriscado mas estou aprendendo com isto também.

As novas possibilidades de trabalho são desafiadoras - em vários aspectos - porém, o mais importante é que podem trazer resultados significativos para mim e para os que estarão envolvidos.

O hip hop... ah... esta entidade em minha vida é realmente marcante... estou pensando e repensando tantos aspectos... estou feliz por ter Fator do E.G. animado pela cena. Ele insiste num movimento de me puxar pela barra da saia e eu, de olho nos "enta", quero encontrar um lugar pra esta entidade em minha vida. Ele, mais perto dos "enta" do que eu, vê tudo com olhos de menino. Empolgado, tá trazendo DJ Damente e eu tô bem feliz com isto.. este encontro entre duas pessoas muito sérias e muito comprometidas com a cultura hip hop só pode trazer crescimento. Veremos se o tempo, a tal entidade melindrosa, agirá com generosidade. DJ Damente faz juz ao vulgo, ele consegue dar um nó no meu pensamento e colocar mais desafios mentais pra mim - gosto desta parte também. Muita reflexão e uma atitude do tipo "se joga" terá que ser creditada a ele. Sou grata. Ainda o hip hop dentro da minha casa... e Oxum sabe como eu tento não me envolver tanto com algo tão complexo!

E tem minha flor do cerrado, paulistana da zona leste, Dorah Madiba. Às vésperas de fazer 18 meses, ela segura a colher, faz uma bagunça com a comida, sobe na cama ou no sofá - testando suas habilidades de alpinistas. Fala várias palavras... a mais recente é "sai" mas já temos mamãe, vovó, vovô, titi, cadê, pão, alô, papai... e alguns sons para outras palavras: tata, para tartaruga, papa, para papagaio, algum som pra dizer que quer assistir TV ou video na internet (Muppets, por exemplo, garante a paz na hora de cortar as unhas), Também tem "me" para comer e "me" para meu. Haja percepção pra diferenciar uma palavra da outra.

Posso não estar estudando formalmente, lendo 5 páginas de Mia Couto (Antes do nascer do Mundo) por dia mas, o aprendizado é constante.
SE o vento permitir, amanhã Dorah encontrará a irmã, de 3anos e 7 meses. Algo deles, eu não faço parte disto e, mais uma vez, novos desafios e aprendizados melhor encarados com o apoio e cuidado de Aline e Fator do E.G.

Muita coisa, muito vento soprando aqui, muita água rolando e, ainda assim, estou confiante na vida.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

os 15 meses de minha flor

Eu poderia dizer mil coisas... já tinha planejado tudo.. os trocadilhos entre 15 meses, hoje é dia 15 e eu também sou alguém nascida em 15... mas fui presenteada com os versos de Lúcia Udemezue, acho que diz muito mais sobre Dorah Madiba do que eu mesma poderia fazê-lo hoje. Lindo gesto, lindas palavras... sou agradecida:

"Menina!
Descobri uma flor do cerrado aqui em Sampa!
Linda, doce e suave, com uma beleza rara
A flor se chama Dorah Madiba,
Advinda de uma espécie rara de outra flor mulher."