segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

De viços e vigor, quem tem o quê?

Ariane Neves


Não vejo com bons olhos o encontro entre um homem mais velho e uma mulher mais jovem. Já as variações disto, são mais palatáveis e até desejáveis às vezes...
Um homem de 30 anos, ou quase isto, com uma "mulher" de 17? O que ele tem a oferecer? Talvez minha questão esteja aí... mas como estou pensando nisto há horas, estou me adiantando.
Uma mulher de 20 e alguns anos está desabrochando. É flor nova, de pouco espinho, tão encantada pelo amanhecer quanto pelo pôr-do-sol. Acredita na paixão, no amor, no trabalho, na leitura, na arte... ou em nada disto, mas sempre terá um leque que vai além dos "amigos, a música e o esporte de sofá".
Mas se é um cara estudado, intelectualizado e ele está com esta mina de 20 e poucos? O que ele tem a oferecer? Estabilidade? Será
Sei que ele tentará subtrair o frescor desta flor, trará dor, lágrimas, esperanças que vão dobrar a esquina e se perderão na multidão. Ele planta o sonho de família feliz, filhos e tal mas não olha nada além da flor desabrochando. Não percebe o perfume, a cor, a textura.
Não a alimenta, não a encanta, não canta, não mima, não nina.
Pode ser que, esporadicamente, ele faça uma coisa ou outra. E ela, esta flor que tão pouco conhece do mundo, sente-se satisfeita com aquela ninharia de cuidado.
Mas sempre terá um pra dizer que ela sabe o que quer. Sim, ela sabe. Ela viu um sei-lá-o-quê no fulano, quase sempre o potencial para ser algo e já que tem alguma caminhada então ele está mais perto de ser uma realização. Quem não sabe é o cara.
O que caras de 25 querem com meninas de 16?
O fetiche de ser o primeiro ou de ser o cara que "a fez mulher"? Querem apoiá-las a estudarem, se formarem, estabelecerem uma profissão, viajar, conhecer o mundo, fazer amizades, aprender a dançar samba rock ou merengue? este cara vai estimulá-la a fazer aula de canto, de fotografia? vai acampar com ela e tomar banho de cachoeira no outono sudestino?
Como eu estou certa de que há poucos homens no mundo que realmente gostam de mulher, pouco provável que este cara hipotético vá fazer alguma mulher, mulher.
Tornar-se mulher não é tornar-se esposa ou mãe. Ser mãe pode aprimorar a mulher mas isto não a faz, não a define.
No meu ponto de vista, estes homens são fracos, se aproximam de jovens mulheres e elas, geralmente, são uma força bruta acumulada numa inocência idílica.
Guerreiras de natureza ou pela caminhada, são extremamente fortes - daí o argumento: "ela é jovem mas é madura".
Não, meu caro senhor, não dá pra acumular uma bagagem de 35 anos num corpo de 22 anos sem que este processo seja doloroso e rapino. As mulheres que tem este histórico carregam marcas no corpo e na alma. Estas, estes homens não desejam.
Desejam a juventude de uma mulher e não sua multiplicidade.
Desejam sugar, vampirizar o viço, a alegria, o encanto... como se fosse possível, ao embebedar-se desta mulher, revigorar-se.
Um homem mais velho, sempre temi, viria com o discurso do "eu já vivi, eu sei o que estou falando" e, somado à posição confortável que muitos homens desfrutam na sociedade apenas por serem homens, supostamente encontrariam menos resistência, podendo ditar o rumo da relação.
Daí o tempo passa, a mulher de quase 20, 20 e poucos tem 20 e todos, 30 e alguns e ele quer recomeçar esta caça em busca da flor viçosa porque daquela, ele acredita já ter tirado todo o néctar.
Não sabe que o melhor está por vir. Virá pelas mãos de habilidoso jardineiro, amante ou não, mas serão mãos de afago, de poda, de ternura.
O caminho trilhado será o de fortalecimento de uma mulher que já tem o DNA de guerreira, ela vai se encantar por si, pela literatura, pela arte, pela música. Vai permanecer de pé, escondendo as feridas, as desilusões, as marcas de guerra e buscando acreditar que a próxima paixão será a paixão que ela merece viver.
Com tanto obstáculo e desilusão, não desistem do amor, da paixão, do tesão...
ainda que busquem tudo isto de um jeito torpe, descompensado.
Todo mundo quer um parceiro que seja companheiro, tipo 'A dama e o vagabundo'. A minha versão disto não envolve macarrão mas livros e música.
Cheguei aos 30 e vários e já não sou alvo destes vilões de viço - o que mais temia. Mas não deixo de compadecer quando vejo um cara de quase 30 rondando uma moça que não tem 20 ou um cara de mais de 30 estilhaçando uma dourada de 20 e poucos.O que estes caras tem de bagagem para oferecer? Um conteúdo que trará a esta mulher dor, tristeza, solidão, mentiras. É o que vi, na maioria das histórias. Se há exceções, como a palavra diz, são exceções.

sábado, 11 de fevereiro de 2012


Tempo... sempre ele...
se você fica parado, ele te alcança; se você corre atrás, ele nunca se deixa controlar.
O tempo por aqui trouxe de tudo: mudanças, sacudidelas, novos desafios, mudança de parâmetros - parecem sinônimos, nas não são. Cada situação vivida traz um desfecho.
A reaparição do pai de Dorah foi uma ventania, ameaçando tirar tudo do lugar, trazendo questões dele muito desagradáveis, com as quais eu jamais imaginei que fosse precisar lidar. Aline, Irma e Nara foram fundamentais para as águas correrem tranquilas sob este vendaval. Participações especiais de Fator do E.G. e Waldemir Rosa!

A ventania resultou em ser apenas uma brisa... dentro de mim, ventou firme e forte mas, ele continua "mais do mesmo". Serviu pra eu encontrar um grupo de pessoas com histórias infinitamente mais desafiadoras, para eu me jogar na vida, voltar a andar correndo riscos e rever o lugar dele em nossas vidas.

O fim de um contrato de trabalho trouxe uma maior definição de quem sou e do que quero no âmbito profissional. Encarei minhas expectativas e decepções. Arriscado mas estou aprendendo com isto também.

As novas possibilidades de trabalho são desafiadoras - em vários aspectos - porém, o mais importante é que podem trazer resultados significativos para mim e para os que estarão envolvidos.

O hip hop... ah... esta entidade em minha vida é realmente marcante... estou pensando e repensando tantos aspectos... estou feliz por ter Fator do E.G. animado pela cena. Ele insiste num movimento de me puxar pela barra da saia e eu, de olho nos "enta", quero encontrar um lugar pra esta entidade em minha vida. Ele, mais perto dos "enta" do que eu, vê tudo com olhos de menino. Empolgado, tá trazendo DJ Damente e eu tô bem feliz com isto.. este encontro entre duas pessoas muito sérias e muito comprometidas com a cultura hip hop só pode trazer crescimento. Veremos se o tempo, a tal entidade melindrosa, agirá com generosidade. DJ Damente faz juz ao vulgo, ele consegue dar um nó no meu pensamento e colocar mais desafios mentais pra mim - gosto desta parte também. Muita reflexão e uma atitude do tipo "se joga" terá que ser creditada a ele. Sou grata. Ainda o hip hop dentro da minha casa... e Oxum sabe como eu tento não me envolver tanto com algo tão complexo!

E tem minha flor do cerrado, paulistana da zona leste, Dorah Madiba. Às vésperas de fazer 18 meses, ela segura a colher, faz uma bagunça com a comida, sobe na cama ou no sofá - testando suas habilidades de alpinistas. Fala várias palavras... a mais recente é "sai" mas já temos mamãe, vovó, vovô, titi, cadê, pão, alô, papai... e alguns sons para outras palavras: tata, para tartaruga, papa, para papagaio, algum som pra dizer que quer assistir TV ou video na internet (Muppets, por exemplo, garante a paz na hora de cortar as unhas), Também tem "me" para comer e "me" para meu. Haja percepção pra diferenciar uma palavra da outra.

Posso não estar estudando formalmente, lendo 5 páginas de Mia Couto (Antes do nascer do Mundo) por dia mas, o aprendizado é constante.
SE o vento permitir, amanhã Dorah encontrará a irmã, de 3anos e 7 meses. Algo deles, eu não faço parte disto e, mais uma vez, novos desafios e aprendizados melhor encarados com o apoio e cuidado de Aline e Fator do E.G.

Muita coisa, muito vento soprando aqui, muita água rolando e, ainda assim, estou confiante na vida.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

os 15 meses de minha flor

Eu poderia dizer mil coisas... já tinha planejado tudo.. os trocadilhos entre 15 meses, hoje é dia 15 e eu também sou alguém nascida em 15... mas fui presenteada com os versos de Lúcia Udemezue, acho que diz muito mais sobre Dorah Madiba do que eu mesma poderia fazê-lo hoje. Lindo gesto, lindas palavras... sou agradecida:

"Menina!
Descobri uma flor do cerrado aqui em Sampa!
Linda, doce e suave, com uma beleza rara
A flor se chama Dorah Madiba,
Advinda de uma espécie rara de outra flor mulher."


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

sobre fala alheia

Quando não se está seguro do conteúdo a ser compartilhado, a fala torna-se prolixa, reduntante e até desinteressante.
É uma tentativa de convencer o outro de que você domina algo que na real, você não domina. Se dominasse, com pouco, diria muito.

sábado, 6 de agosto de 2011

Questão de difícil solução

Existe um momento em que uma linha deve ser cruzada. Fronteira estabelecida por N motivos... preservação, creio, é ao principal deles.
Há uma vontade de (res)guardar, proteger, deixar apenas para quem é. Uma questão de identidade que foi construída em contraposição à constantes violações e depreciações.
Esta fronteira não é perpétua, assim como nenhuma outra fronteira. Seja ela geográfica, emocional ou moral. Em algum momento ela será transposta por alguém.
Tenho me deparado tentativas de trasposição de algumas fronteiras que sempre foram consolidadas e legitimadas.
Como sou uma pessoa que transita entre várias fronteiras, acabo enxergando estes movimentos numa frequência que sou incapaz de absorver e me pergunto: já que estou tão próxima a esta fronteira, devo me envolver neste momento em que ela é redesenhad? se eu me envolvo, garanto o entendimento por ambos os lados? Serei capaz de preservar o essencial ou a coisa será tomada de assalto e eu serei usada como "uma de dentro" a favor de um interesse que não é o meu, tão pouco o interesse de quem se manteve intacto até agora.
Ficar indiferente é tão impossível quanto permitir uma transgressão e manter distância. TEnho um dilema em minha mão... espero ter sabedoria para lidar com ele.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Onze

Onze meses e meio de vida.
350 dias.
4 dentes na boca - dois nascidos e dois nascendo.
posso fazer algumas estatísticas
trazer dados variados
primeiro isso, primeiro aquilo
nada mas nada disto retrará um segundo do meu amor por esta cunhatan.
A danada me ganhou... nem sei quando!
Certamente quando saiu de dentro de mim algo mudou
mas mudou dum jeito indescritível.
Estas mudanças foram tantas que ainda não me reaprumei.
Me custa em alguns aspectos... no corpo, no coração, no cotidiano.
Custo, não fardo.
Preço um pouco mais caro pra pagar porque tenho 36 anos e algumas coisas estavam sedimentadas.
Tão miúda ela mexe com tudo.
e não tô contando nenhuma novidade.
Só repetindo pra acreditar.

Já me habituei que ela não tem pai.
mais de 60 dias sem vê-la? somado aos outros 45, nos últimos 120 dias é praticamente 95% dos dias transcorridos sem vê-la.
Ela tem genitor.
Doador de material genético.
Digo sem rancor.

Mas ela tem mãe.
Sei lá que tipo de mãe eu sou...
do tipo que, por um lado, não a larga e, do outro, a deixo tão solta.
Ontem ela meteu a cara na parede - ganhou um hematoma na bochecha.
Nunca pensei que fosse possível um hematoma na bochecha.

A data cabalística tá chegando...
não estou completamente pronta mas já me imagino no cinema, já vou à consulta médica sem ela. Já concebo deixá-la com outras pessoas.
Passeia por aí no sling aconchegada em outro corpo que não o meu.
É bom pra ela.
É bom que ela receba amor de outras pessoas além de mim.
Eu a amo mas também a deixo tão à vontade...
inclusive pra meter a bochecha na quina da parede.

Ela é voluntariosa, geniosa, generosa - tão leonina...
ela é sedutora, doce...
põe as costas da mão no meu peito e apoia o queixo; reflete um pouco e então, cochila.

Ela levanta o dedinho, num gesto tão familiar pra mim, e aponta.
Estica a mão pro espinho, pra flor, pro tronco de árvore.
Aponta uma escultura do tipo gárgula no alto de uma casa e dá risada.
Como gargalha gostoso...

Tenho medo de fracassar.
De perder o chão.
Ela só tem mãe - o só é força de expressão porque, na boa? sou muita coisa...
mas dá medo porque tudo, até agora, parecia ensaio e há 350 dias, a brincadeira é pra valer.

terça-feira, 5 de julho de 2011

olho vermelho

seria diferente se ela não cruzasse a cidade?
esta conjutivite é intrigante.
algo nos olhos... algo pra ver que não é visto?
algo que perturba a visão?
deixei passar algo?
não sei...
ela tá de olho vermelho,
grudada no peito.
Dorme um pequeno cochilo no dia.
Depois rola pela casa.
engatinha rápido
Brinca
e cola.
gruda.
Gruda no peito.
prefere peito à sopa
Resmunga durante o sono.
o olho arde -
ou dói?
O clima seco,
o ar de pouca qualidade,
a imunidade de uma bebê
exposta a todas as condições da rua
- boas e ruins
Aos encontros com pessoas queridas
e ao esbarrão com a rufada de vento.
Me sinto culpada.
É simples mas poderia ser diferente.
E não termina.
no olho.
visão.
ardência.
camomila.
choro.
peito.
perturbação.