Domingo me disseram: "uma mulher que é mãe não é apenas uma mulher."
No momento em que Dorah nasceu, o mundo me pareceu ganhar uma lente, com mais nitidez na imagem e mais vivacidade nas cores. Me perguntei, "como pude 'não enxergar' por tanto tempo'?
A situação se complexificou ao mesmo tempo em que trouxe singelices no cotidiano.
Ainda me encanto com a intensidade de versos de Fernando Pessoa, ainda me vejo ali mas fui mais além.
Fui a um lugar em que ele não esteve.
Um caminho trilhado por algumas mulheres.
Descobri-me.
Reinventei-me
Estou
Sou
O que me doía antes, atualmente, é como um grão de areia.
Só preciso de silêncio.
Silêncio para deixar meu coração bater, sem que eu mesma precise escutar os pensamentos que lá estão.
Para que o vento os levem, os espalhem, como pólen.
Preciso olhar minha preta comendo, correndo pela casa, batendo a cabeça na quina da mesa, sambando em frente ao espelho.
Escutá-la dizer: "opa!" "umguigo" ou cantarolar Carmen.
Não sei ouvi-la dizer "dodói", sem ficar de coração partido - que mãe sabe?
Não sei ouvi-la chorar e ficar indiferente.
Tô aprendendo que ela não pede meu peito. O leite que veio com ela, que era dela, já não lhe apetece.
Com isto vem a vontade de beber uma taça de vinho ou trago de rum, fumar um Popular, sentir a brisa fria no rosto, o calor do corpo adulto...
tudo igual ao que já foi um dia?
Não, porque não sou apenas uma mulher.
sábado, 14 de julho de 2012
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